Vozes dos territórios: quebradeiras do Piauí apresentam Carta Política e celebram suas histórias
Atividade realizada em Esperantina reuniu quebradeiras de coco, famílias e lideranças, homenageou mulheres que fazem parte da história do movimento e apresentou Carta Política de Compromisso com reivindicações das comunidades
O MIQCB, Regional Piauí, realizou nesta quinta-feira (24), em Esperantina (PI), uma programação especial em celebração ao Dia Estadual das Quebradeiras de Coco Babaçu. O encontro aconteceu no Clube O Arrocha, na localidade Amargosa, e reuniu quebradeiras de coco, familiares, lideranças comunitárias, organizações parceiras e representantes do poder público em um dia marcado pela celebração, memória, cultura e reafirmação da luta das mulheres.
Com o tema “Somos quebradeiras, somos floresta, somos território, somos vida!”, a programação contou com feira agroecológica, competição de quebra de coco babaçu, abertura oficial, homenagens e o momento “A Voz das Quebradeiras”. A cultura das comunidades também teve lugar de destaque, com apresentações do Bloco Afro do Quilombo Olho d’Água dos Negros e das Encantadeiras, trazendo música, ancestralidade e identidade para a celebração.
Para a coordenadora executiva do MIQCB Regional Piauí, Marinalda Rodrigues, celebrar a data é também reconhecer a trajetória das mulheres que construíram a história do movimento e fortalecer a organização coletiva.
“Celebrar o dia das quebradeiras de coco é celebrar a nossa própria história. É reconhecer a força das mulheres que vieram antes de nós, valorizar aquelas que continuam na luta e reafirmar que nossos territórios, nossa cultura e o babaçu fazem parte da nossa vida. Este é um momento de encontro, de memória, mas também de fortalecer a nossa organização e seguir construindo caminhos coletivamente.”
Homenagens celebram trajetórias de mulheres quebradeiras
Um dos momentos de maior emoção da programação foi a homenagem às mulheres que fazem parte da história das quebradeiras de coco babaçu. A atividade reconheceu mulheres que seguem atuando nas comunidades e também prestou homenagens in memoriam, com a entrega de placas aos familiares de mulheres que já faleceram.
Entre as homenageadas esteve Cristiane Silva do Nascimento, da comunidade Vieira, em Esperantina, que destacou a importância do reconhecimento para as mulheres que seguem construindo a luta nos territórios.
“Para mim, é uma grande honra receber essa homenagem, porque mostra que a nossa luta nos territórios não é em vão, que estamos todas juntas e que nossa atividade é para a melhoria das nossas vidas e das nossas famílias. O MIQCB reconhecer isso é muito importante e nos dá mais ânimo para continuar na luta”, afirmou Cristiane.
A programação também reservou um momento especial para a memória de dona Raimunda Pereira, da comunidade Boi Velho, representada pela filha, Maria Paixão. Raimunda, que já faleceu, teve uma trajetória ligada ao movimento e também integrou as Encantadeiras.
Emocionada, Maria Paixão destacou o significado da homenagem para a família e o reconhecimento da trajetória de sua mãe.
“A gente ficou muito emocionado com essa homenagem de reconhecimento da nossa mãe, que, de fato, tem uma história importante junto ao movimento. Ela foi Encantadeira, gostava muito de participar das atividades do MIQCB, e para a gente foi uma grande honra receber essa homenagem. Mostra o quanto o movimento tem respeito pela trajetória e pela vida das mulheres.”
Para o movimento, preservar essas histórias é também reconhecer que a luta das quebradeiras é construída entre gerações. As mulheres homenageadas representam diferentes trajetórias, mas compartilham uma história de organização, trabalho, defesa dos babaçuais e busca por melhores condições de vida para suas comunidades.
Carta Política reúne reivindicações das comunidades
Outro momento central da atividade foi a leitura da Carta Política de Compromisso das Quebradeiras de Coco Babaçu. O documento reúne as pautas gerais defendidas pelo movimento e apresenta também reivindicações específicas das comunidades de quebradeiras acompanhadas pelo MIQCB no Piauí.
A Carta expressa demandas construídas a partir da realidade vivenciada pelas comunidades e reafirma a necessidade de políticas públicas voltadas à garantia de direitos, à proteção dos babaçuais, à defesa dos territórios tradicionais, à regularização fundiária, ao enfrentamento das violências contra as mulheres e ao fortalecimento das condições de trabalho e de vida das quebradeiras.
Após a leitura, o documento foi entregue ao deputado estadual Francisco Limma, que esteve presente na atividade. A Carta também será encaminhada às demais autoridades competentes, ampliando o diálogo institucional sobre as reivindicações apresentadas pelas comunidades.
A presidenta da Associação das Mulheres Trabalhadoras do Coco Babaçu (AMTCOB), Helena Gomes, destacou a importância da organização das mulheres para a construção e apresentação dessas demandas.
“Para a AMTCOB, é muito importante participar deste evento. A AMTCOB é uma grande parceira do MIQCB e, para nós, politicamente, esse espaço é muito importante. Celebrar a vida, a história e a resistência das mulheres quebradeiras de coco babaçu é uma grande honra. É também um momento de fortalecer nossa organização, reafirmar nossas pautas e mostrar que, quando estamos juntas, temos mais força para lutar pelos nossos direitos e pela preservação dos babaçuais.”
Durante o momento de diálogo, Francisco Limma falou sobre a importância de colocar a vida, os direitos humanos e a proteção dos recursos naturais no centro das políticas públicas. O deputado também relacionou a preservação ambiental à garantia da água e à proteção das comunidades.
“Quando você desmata, é como se selasse os poros da terra que absorvem a água e transformam o solo em uma grande caixa d’água, que alimenta os olhos d’água, as lagoas, os riachos e os rios. Por isso, precisamos estar atentos e enfrentar esse problema.”
A fala dialoga diretamente com uma das dimensões centrais da Carta apresentada pelas quebradeiras: a defesa dos babaçuais e dos recursos naturais como condição para a continuidade dos modos de vida das comunidades.
Cultura que mantém viva a identidade
A celebração também mostrou que a luta das quebradeiras de coco babaçu se expressa por diferentes linguagens. Música, dança, memória e ancestralidade fizeram parte da programação e deram visibilidade às expressões culturais das comunidades.
O Bloco Afro do Quilombo Olho d’Água dos Negros levou para o encontro a força da cultura quilombola, enquanto as Encantadeiras reafirmaram, por meio da música, a identidade e a história das quebradeiras de coco babaçu.
A presença das Encantadeiras também carregou um significado especial diante das homenagens realizadas durante o encontro. Entre as mulheres lembradas estava dona Raimunda Pereira, que integrou o grupo e deixou sua contribuição para a história cultural do movimento.
As apresentações reforçaram que a cultura é parte da própria luta das quebradeiras: uma forma de preservar saberes, transmitir histórias entre gerações e afirmar a identidade das mulheres e das comunidades.
Ao longo do dia, as atividades reuniram diferentes gerações em torno de uma mesma história. Entre homenagens, manifestações culturais, reivindicações e momentos de confraternização, as quebradeiras reafirmaram a importância da organização coletiva para defender seus direitos e os babaçuais.
A celebração do 24 de setembro, assim, foi também um momento de memória e continuidade: reconhecer as mulheres que vieram antes, valorizar as que seguem na luta e fortalecer as reivindicações das comunidades para que suas vozes sejam ouvidas nos espaços de decisão.