O primeiro dia do Intercâmbio da Rede de Fundos Comunitários da Amazônia é marcado pela história das Organizações dos Fundos Comunitários

O primeiro dia do Intercâmbio da Rede de Fundos Comunitários da Amazônia, teve início nesta terça-feira (02), na cidade de Esperantina/PI. Com um público formado por representantes de oito Fundos Comunitários, que são integrantes da Rede de Fundos Comunitários da Amazônia, e são oriundos dos Estados do Maranhão, Pará, Amazonas, Piauí, Acre e representantes de outros países como a Suécia, Itália, Equador e Colômbia. Na oportunidade os representantes puderam conhecer de perto o contexto histórico história das Organizações dos Fundos Comunitários.

Para a coordenadora executiva do MIQCB e do Fundo Babaçu, Marinalda Rodrigues, o Intercâmbio é muito importante, pois conseguiu agregar a participação dos outros Fundos da Rede de Fundos Comunitários aqui na nossa região do Piauí. “Serão quatro dias de atividade, hoje iniciamos e seguimos até o dia cinco, onde ocorrerá o quinto Encontro da Rede de Fundo Babaçu. A minha expectativa é que todos se sintam bem aconchegados, bem recebidos e que todos tenham a oportunidade de conhecer o que é o Fundo Babaçu, o que é o MIQCB e como ambos funcionam. Além de todos terem a oportunidade de conhecer as unidades de produção do mesocarpo, que fica no território Vila Esperança, que é o primeiro território de quebradeira de coco Babaçu regularizada no Brasil”, disse.

Moema Miranda, da Ação Social Franciscana (SEFRAS), para ela estar integrando o Intercâmbio permite aprofundar debates que antes eram com tempos curtos entre uma atividade ou outra. “A nossa história é coletiva, compartilhada, às vezes vai ficando picotada, vai ficando fragmentada. A Rede então vai se encontrando, mas tem às vezes uma agenda precisa, e aí esse momento de intercâmbio, é um momento de aprofundamento coletivo, em que cada um foi trazendo a sua história e a gente vai vendo como a história de todos os fundos é entrelaçado, como um tecido mesmo, de muitas histórias, vitórias, derrotas, das nossas mortes, daqueles que tombaram antes de nós, mas, como foi lembrado, cada vez que um tomba, todo mundo está junto para levantar e seguir adiante”, disse.

Já a coordenadora regional América Latina, Tenure Facillity, Karin Ericsson, o Intercâmbio foi uma grande oportunidade para poder entender melhor as dinâmicas dos Fundos de cada uma das organizações presentes e também a dinâmica da articulação entre estas organizações que se articulam em Rede. “Somos um parceiro e um financiador dos movimentos indígenas, quilombolas e dos povos tradicionais no Brasil, e também há muito apoio aos fundos comunitários territoriais. Nosso objetivo é poder canalizar os Fundos para poder ofertá-los aos povos. Este mecanismo dos fundos territoriais comunitários é algo que interessa todo mundo. Todo mundo está querendo saber como isso está sendo criado, porque há aqui uma proposta concreta, que atende à demanda dos povos. Então a gente tem a responsabilidade de ajustar processos enquanto doador para ser cada vez melhor um parceiro de qualidade”, disse.

O representante do Fundo Puxirum/PA, Ivanildo Brilhante o primeiro Intercâmbio da Rede de Fundos Comunitários é uma tecnologia social que se adapta, aprimora e  ouve a sociedade, para que impactem e faça com que o dinheiro chegue na ponta, de quem realmente precisa. “Para mim é uma experiência fantástica poder compartilhar saberes e fazerem essa ferramenta do Fundo Comunitário esteja a serviço da sociedade brasileira. A Rede de Fundos traz um rompimento com o neocolonialismo, ela também rompe com o atravessador do recurso da filantropia que não chegava em quem realmente precisava”, disse.

Nesse primeiro dia de atividades os participantes puderam aprofundar o debate sobre a trajetória e memórias da organização e governança dos Movimentos e dos Fundos Comunitários. Onde os participantes puderam contribuir com seus saberes os fatos históricos que favoreceram a formação das organizações como vemos hoje em dia.

MIQCB contra o PL do Estupro (PL 1.904/2024)

Pela vida de mulheres e meninas das cidades, do campo, das aguas e das florestas

Criança não é mãe e estuprador não é pai

O Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu-MIQCB manifesta o mais profundo repúdio ao Projeto de Lei 1.904/2024 que iguala a prática do aborto ao crime de homicídio quando ele é feito após a 22ª semana de gestação. Esse PL é claramente um retrocesso, uma violação do direito à vida com dignidade das meninas e mulheres. Mais que um projeto de lei, o PL expressa a cultura patriarcal do estupro; vigente em nosso pais desde 1500, impondo gravidez infantil e silenciando e criminalizando as vítimas de estupro.

O PL 1.904/2024 foi apresentado pelo deputado Sóstenes Cavalcante (PL/RJ) e outros 32 parlamentares à Câmara dos Deputados. O PL do Estupro prevê uma alteração na lei penal sobre o aborto, Hoje, o procedimento do aborto legal é permitido em casos de estupro, risco de vida ou diagnóstico de anencefalia fetal, sem limite de idade gestacional. O projeto de lei apresentado pelo deputado quer proibir o aborto em casos de estupro, se realizado depois das 22 semanas de gestação – e pior, quem fizer o procedimento pode responder por homicídio! Ou seja, a vítima de estupro pode ser presa, com pena de até 20 anos de prisão, enquanto estupradores são condenados, no máximo, dez anos de cadeia, de acordo com previsão do Código Penal.

As principais afetadas serão crianças, especialmente meninas negras, indígenas, periféricas e rurais de até 13 anos, que representam mais de 60% das vítimas de estupro no país, segundo dados do último Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2023). Se aprovado, este Projeto de lei vai afetar principalmente crianças vítimas de violência sexual que demoram para romper o medo e o silencio até denunciar seus agressores sexuais e que não conseguem acessar sozinhas serviços de saúde e de justiça especializados, por sinal, insuficientes e precarizados.

O Miqcb se une a milhares de mulheres e as Organizações da sociedade civil, bem como a agentes e instituições públicas, contra este retrocesso. Exigimos respeito e dignidade para todas as mulheres e meninas que enfrentam todos os dias violações de seus direitos.

Nosso corpo-território é sagrado!

Criança não é mãe e estuprador não é pai!

MIQCB articula com o Estado do Piauí e Banco Mundial para ter o 2º Território Tradicional de Quebradeiras de Coco Babaçu do Brasil

A coordenação do MIQCB regional Piauí e a presidenta da AMTCOB e CIMQCB, receberam na tarde desta terça-feira (25), o Diretor geral do INTERPI, Rodrigo Cavalcante e equipe e o representante do Banco Mundial, Camille Bourguignon. O objetivo da visita foi estabelecer um diálogo com o território Santa Rosa, que ainda esse ano irá receber o título do segundo território de quebradeiras de coco babaçu do Brasil, o primeiro é a Vila Esperança, também no Piauí.

Para Helena Gomes, presidenta da AMTCOB e CIMQCB, esse momento reflete o trabalho que já vem se estabelecendo com a comunidade Santa Rosa. “Hoje estamos vivenciando esse diálogo com o Estado, por meio do INTERPI e com o representante do Banco Mundial, para assim definirmos o território Santa Rosa como um Território Tradicional de Quebradeiras de Coco Babaçu, é uma satisfação muito grande, além do reconhecimento do nosso trabalho, enquanto organização de quebradeiras de coco babaçu”, disse.

Já o diretor geral do INTERPI, Rodrigo Cavalcante, falou sobre os passos do trabalho realizado pela equipe no território, que consiste em identificar todas as famílias, estudar o território, entender qual é a área de abrangência do território, onde cerca de 100 famílias coletam coco babaçu. “Enquanto aqui a equipe está cadastrando, está medindo, está georreferenciando, outra parte da equipe, em Teresina, já vai estar identificando se existe alguma matrícula, se não existe, a gente vai abrir uma matrícula em nome do Estado, a gente vai efetivamente fazer a transferência para a comunidade. De um título que é coletivo, por que coletivo? Porque ele vem no nome da Associação, pertence a todos que fazem parte da Associação, e é um título inalienável, intransferível e ninguém vai se desfazer”, disse.

A coordenadora executiva do MIQCB, do regional Piauí, Marinalda Rodrigues destacou a importância da atividade ocorrer no território Santa Rosa, com representantes do Governo do Estado e do Banco Mundial. “Esse evento aqui no território Santa Rosa foi importante para que as famílias que integram o território entendam o que é um território coletivo e qual a importância da regularização de um território coletivo. E o INTERP e o Banco Mundial, estando presente aqui, só nos fortalece ainda a gente da coordenação, da comissão do MIQCB”, destacou.

No final da reunião a equipe pôde conhecer um pouco da Unidade de produção das quebradeiras de coco babaçu localizada em São José dos Órfãos, as mulheres apresentaram a quebra do coco babaçu e também ofereceram bolo e mingau de mesocarpo. Essa semana a assessoria técnica do MIQCB e a coordenação irá se reunir com a equipe do INTERPI, em Teresina, para continuar o diálogo do território Santa Rosa.

Juventude do MIQCB regional Piauí participa de diagnóstico participativo

Cerca de 30 jovens filhos/as, netos/as e quebradeiras de coco babaçu do MIQCB regional Piauí, participaram do primeiro Encontro de Juventudes para a aplicação do Diagnóstico Rápido Participativo-DRP. O encontro ocorreu na comunidade do Tapuio, próximo a cidade de Esperantina/PI, entre os dias 20 e 21 de junho.

Para a assessora de juventudes do MIQCB, Carla Pinheiro, a atividade compõe um passo importante para o mapeamento das juventudes que vivem e atuam no território das Quebradeiras de coco babaçu. “O MIQCB tem a grande missão que é fortalecer o perfil social e político da vida desses jovens, compreendendo suas diversidades, particularidades, dificuldades, anseios, nós estamos felizes de estarmos aqui no Piauí realizando essa atividade, rica de experiências e aprendizado “, disse.

Já para a jovem Cassandra Carvalho de 21 anos, que mora na Vila São Pedro, município do Morro do Chapéu, a atividade foi bastante rica e com muito aprendizado.” do encontro foi maravilhoso, houve bastante troca de experiência, muito aprendizado, e eu acho que nós jovens temos que ter mais espaço como esses”, disse.

O jovem Diego Silva de 17 anos, que mora na Chapada da Limpeza, o encontro foi importante pois conseguiu traduzir o que ele sempre dialogou em casa, com sua mãe e sua avó, mas agora para mais jovens.  “Acho importante esse diálogo sobre preservar as nossas palmeiras, as histórias que se passaram da minha avó para a minha mãe. Minha avó criou 18 filhos e boa parte da renda ela tirou do coco babaçu, porque o marido dela, não ajudava muito em casa para comprar comida. Minha avó criou uma geração de pessoas, com ajuda do coco babaçu, isso é um orgulho para mim, é um orgulho de conhecer um pouco mais a história dela, disse.

Estiveram presentes jovens dos territórios, Jatobá, Canto Grande, Chapada da Sindá, Vila São Pedro, Chapada da Limpeza, Fortaleza, Tapuio, Esperantina, Cabeceiras, Santa Rosa, Vila Esperança e Riacho de Santa Maria.

Mulheres na produção: AMTCOB realizam entregas de produtos para o Programa de Aquisição de Alimentos

A Associação das Mulheres Trabalhadoras do Coco Babaçu (AMTCOB), com apoio do Fundo Babaçu, realizou nesta semana (18,19 e 20), a entrega dos produtos para o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) nas cidades de Esperantina, Madeiro, Joca Marques, Luzilândia e São João do Arraial.

As entregas foram para o Centro de Assistência Social (CRAS) das cidades respectivas cidades, a Ação Social Esperantinense (Asesp) e a Escola Família Agrícola Cocais (EFA). Ao todo foram entregues 1200 litros de azeite de babaçu, 93 kg de farinha de babaçu, 300kg de bolo de goma, 320kg de beiju, 33kg de biscoito, 250kg de bolo de milho, 250kg de abobora, 37kg de acerola e 35 kg de limão.

Para a presidente do Cimqcb, Helena Gomes essa ação reflete o trabalho das mulheres quebradeiras de coco babaçu cooperativadas, “nosso fluxo se define em trazer os produtos para a unidade central e preparamos, com rótulos e ajustes nas embalagens, para serem entregues no CRAS de Esperantina”, disse.

O PAA realiza a compra direta de alimentos de agricultores familiares, sem necessidade de licitação e os destina a pessoas em situação de insegurança alimentar e nutricional, bem como à rede socioassistencial, equipamentos públicos de segurança alimentar e nutricional e à rede pública e filantrópica de ensino. O PAA tem como objetivo fortalecer a agricultura familiar, gerando emprego, renda e desenvolvendo a economia local, e de promover o acesso aos alimentos, contribuindo para reduzir a insegurança alimentar e nutricional.

Encontro Tocantinense de Agroecologia reúne mais de 400 pessoas em Palmas

Abertura do Encontro em formato de formigueiro composta pelos vários povos tradicionais

A Articulação Tocantinense de Agroecologia (ATA) realizou, entre os dias 06 e 08 de junho em Palmas-TO, na Escola Municipal Fidêncio Bogo, espaço de educação do campo, o 6° Encontro Tocantinense de Agroecologia. O evento reuniu camponeses e camponesas, quebradeiras de coco babaçu, indígenas, quilombolas, povos tradicionais, movimentos sociais, defensores e defensoras de direitos humanos, com o objetivo de discutir o fortalecimento da agroecologia.

O encontro teve início na quinta-feira (06), às 14h, com a realização de uma Audiência Pública com o Ministério Público Federal (MPF), Defensoria Pública do Tocantins (DPE-TO) e Ministério Público do Estado do Tocantins (MPE-TO) para discutir a questão agrária no estado, a realidade e a luta dos povos do campo.

Foram mais de cinco horas de discussão sobre a Reforma Agrária no Estado, dentre as questões levantadas estava o Projeto de Lei (PL) nº 1.199, de autoria do Senador Eduardo Gomes. Se aprovada, determinará que as terras da União sejam devolvidas ao Estado, sob a tutela do Instituto de Terras do Tocantins (Itertins) para realizar a redistribuição.

O jovem Jorge Ruberto Lima, que agitou a plenária do MPE-TO com o seu posicionamento

A referida lei foi defendida pelo agronegócio, em contrapartida aos posicionamentos contrários dos movimentos sociais. As terras em questão já estão ocupadas há décadas pelos trabalhadores rurais, quilombolas e indígenas. Muitas comunidades tradicionais ainda não conseguiram o seu direito à terra garantido, como explica a advogada do Movimento Interestadual de Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB) Karla Dutra.

“Estamos falando de famílias que estão há mais de três décadas lutando pelo direito à terra. Territórios esses que já existiam muito antes de se dividir o Estado de Goiás para criação do Tocantins. Sem a devida regularização, esses povos ficarão à mercê da redistribuição de um órgão que pode não reconhecer seus direitos”, declarou a advogada.

Outro questionamento imposto sobre o PL é o fato de que nenhuma entidade de organização social foi convidada a contribuir. Dona Francisca Pereira Vieira, que é coordenadora de base da Regional Tocantins do MIQCB ainda provocou: “não é de hoje que nós buscamos diálogo com o governo, não. Eu saí lá do Bico do Papagaio dentro de uma van para estar aqui e descobrir que querem descer essa lei goela abaixo em nós, que somos trabalhadores rurais”.

Nos demais dias de encontro, a programação contou com a realização de oficinas, mesas de diálogos, feiras e um conjunto de outras atividades que contaram com a participação de aproximadamente 400 pessoas de todas as regiões do Estado. Um dos temas centrais discutidos nesta edição foi a necessidade de elaboração da Política Estadual de Agroecologia e estruturação de estratégias para aumentar a produção e o consumo de produtos agroecológicos no Tocantins.

O encontro teve um conjunto de encaminhamentos como a construção do Plano de atuação da ATA para 2024 e a criação de grupos de trabalho para acompanhamento das seguintes pautas: Grupo 1 – Terra e Território: discutir a legislação do estado sobre regularização fundiária; Grupo 2 – Educação do Campo: garantir e construir um conjunto de documentos e normativas que avancem na educação do campo; Grupo 3 – Mercado de Comercialização e Agricultura; e Grupo 4 – Política Estadual de Agroecologia.
Maria Aparecida Apinajé, indígena da aldeia Prata, participou da oficina de artesanato e contou que foi interessante aprender sobre mais uma possibilidade de utilização do babaçu. “Eu quebro o coco desde criança. O babaçu sempre foi utilizado como forma de alimento para nós. Mas o artesanato foi uma boa novidade”.

Oficina sobre Racismo Amiental utilizou a dinâmica da teia para conectar as pessoas

A contribuição da juventude como formadores também foi destaque, Taslane da Conceição Carneiro, jovem pindova do MIQCB, compôs a equipe que ministrou a oficina sobre Racismo Ambiental, “tem sido muito bom aprender e compartilhar experiências, em momentos assim descubro o quanto já aprendi e posso repassar e o quanto ainda tenho o que aprender”.

Jorlando Ferreira Rocha, quilombola da Ilha de São Vicente, coordenador de Território da Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Tocantins (COEQTO) e representante da ATA, destacou a importância do encontro para discussão da segurança alimentar, produção agroecológica, preservação ambiental e regularização territorial.

“Os povos indígenas, quilombolas, quebradeiras de coco e agricultores familiares vem preservando e garantindo para o povo do campo e da cidade uma produção saudável. Então, o encontro de agroecologia proporciona o fortalecimento dessas comunidades, a partir da discussão da produção e da sustentabilidade dentro dos territórios”, disse.

Para Edivânia S. de Souza, conhecida como Vânia do MST, integrante com mais de 28 anos de luta dentro do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, no município de Palmeirante-TO, o encontro de agroecologia proporcionou a troca de experiência entre diferentes movimentos do campo e o fortalecimento da luta pela terra.

“Nós do MST viemos para o encontro com o intuito de aprender ainda mais com os companheiros de outros movimentos. É muito importante a discussão da agroecologia, pois sem a terra, não tem como a gente produzir nada. Então, acreditamos que com esse movimento, a gente vai fazer a diferença”, finalizou.

Na plenária final, cada representante compartilhou os encaminhamentos de cada oficina do evento

A Articulação Tocantinense de Agroecologia vem se articulando desde 2002, quando aconteceu o primeiro Encontro Nacional de Agroecologia, onde participaram diversas organizações do estado. A partir desse encontro, em 2015, se consolidou a Articulação Tocantinense de Agroecologia, que vem se reunindo com o objetivo de fortalecer a agroecologia e pautar a luta pela terra no Tocantins.

Participantes

Participaram do Encontro Tocantinense de Agroecologia as entidades: Alternativas para a Pequena Agricultura no Tocantins (APA-TO); Articulação Tocantinense de Agroecologia (ATA); Associação Regional das Mulheres Trabalhadoras Rurais do Bico do Papagaio (ASMUBIP); Cáritas Brasileira; Comissão Pastoral da Terra (CPT); Comunidade de Saúde, Desenvolvimento e Educação (CONSAUDE); Conselho Indigenista Missionário (CIMI); Cooperativa Interestadual de Quebradeiras de Coco Babaçu (CIMQCB); Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Tocantins (COEQTO); Eco Terra; Escola Família Agrícola do Bico do Papagaio (EFA BIP); Escola Família Agrícola de Porto Nacional (EFA Porto); Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Tocantins (FETAET); Instituto Clima e Sociedade (iCS); Movimento dos Atingidos por Barragens; Movimento Interestadual de Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB); Movimento Sem Terra (MST); Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (STTR); Tenure Facility; União das Cooperativas de Agricultura Familiar e Economia Solidária do Estado do Tocantins (Unicafes); e Vozes do Bico.

DRP da Juventude proporciona interação entre comunidades diferentes no Tocantins e no Pará

Juventudes do Pará em círculo para iniciar os trabalhos do segundo dia do DRP

O Movimento Interestadual de Quebradeiras de Coco Babaçu iniciou a aplicação do Diagnóstico Rápido Participativo (DRP) nas regionais. No último final de semana, entre os dias 24 e 27 de maio, as Regionais Tocantins e Pará receberam a assessora de Juventudes Carla Pinheiro para ouvir os jovens e promover conexões entre a realidade das comunidades e o planejamento estratégico que irá definir as próximas atividades.
A ideia é preparar um conjunto de ações para incluir as demandas das juventudes nas prioridades do MIQCB e da Cooperativa Interestadual de Mulheres Quebradeiras de Coco Babaçu (CIMQCB). Isso porque as quebradeiras de coco entenderam que a inserção das juventudes nas pautas do Movimento é necessária e urgente.
No Tocantins, o DRP aconteceu na sexta, 24, e no sábado, 25. As juventudes reunidas participaram de dinâmicas que incentivaram a interação, a reflexão e o trabalho em equipe. “Não é só chegar e perguntar o que eles querem, primeiro precisamos preparar o território para firmar acordos, resgatar histórias, ensinar sobre a importância da luta em defesa dos babaçuais e propor que se envolvam”, completou Carla.

Carla Pinheiro durante a aplicação do DRP no Tocantins

“Estou feliz que eles aceitaram o convite do MIQCB para contribuir”, declarou a coordenadora de base da Regional Tocantins Maria Conceição Barbosa da Silva, que esteve nos dois dias de atividades para compartilhar sua experiência na luta. “Os conflitos mais acirrados aconteceram na década de 80, foi aí que começou a perseguição aos trabalhadores rurais. Nós sentimos a necessidade de organizar a luta para viver”.
Aprender sobre a história de sua origem conscientiza as juventudes a ingressar na luta, por isso a presença das ‘capotas’, assim chamadas as lideranças atuais no MIQCB. Além disso, oportuniza às quebradeiras também conhecerem os atuais desafios sociais enfrentados pelas juventudes. “A maior herança que vocês podem receber é a nossa luta, porque até a terra pode vir alguém e tirar”, provocou a coordenadora de base da Regional Tocantins Maria Silvania Nunes da Paixão.
Ambas as coordenadoras ouviram as construções feitas pelas juventudes. Na aplicação da dinâmica “Tronco, Cortar e Regar”, que consistia em identificar o que é fundamental para as juventudes, o que deve ser eliminado para que a continuidade da luta conte com o envolvimento juvenil e o que deve ser incentivado para que a inclusão deles seja bem sucedida.
Para o jovem Matheus dos Santos Filho, que veio do Projeto de Assentamento II Setor Sede do município de Araguatins, disse que este encontro também contribui para o fortalecimento da permanência dos jovens no campo. “A troca de saberes possibilita o enriquecimento da bagagem cultural e de construção da identidade das juventudes do Bico do Papagaio, principalmente pela forma coletiva como foi feito”.
No Pará, as juventudes se reuniram nos dias 26 e 27 de maio. Os momentos de maior participação foram o resgate histórico e a apresentação de suas comunidades. Embora o diagnóstico também tenha sido bem aproveitado pelos participantes.

Cledeneuza compartilha os motivos de continuar na luta

Enquanto a coordenadora executiva da Regional Pará, Cledeneuza Bizerra, contava sobre seu ingresso na luta, os motivos que a fizeram perseverar até os dias de hoje e o propósito de continuar trabalhando por um futuro melhor para as quebradeiras de coco, as juventudes ouviam atentamente. Relatos como a violência e a intimidação contra as quebradeiras de coco encheram os jovens de dúvidas.
“A gente enfrentou a violência dentro de casa e a discriminação na rua. Hoje, temos maior liberdade para trabalhar. Tudo que é impedimento nós resolvemos na conversa. Ainda sofremos ameaças por causa da nossa profissão, mas como estamos organizadas conseguimos lidar com as situações de forma rápida e forte”, relatou Cledeneuza.
Uma pergunta após a outra era respondida pelas curingas presentes, Iracema Vieira Félix, liderança tronco do MIQCB, contou que em sua jornada na luta conheceu vários países. “Muitos jovens têm vergonha da nossa profissão, mas foi ela que me levou pro mundo. Foi do coco que eu vivi, do coco criei meus filhos. Se a gente se unir todo mundo vai passar a conhecer o babaçu e a respeitar ele, por isso que eu continuo nessa caminhada”.
Depois da conversa com as curingas, os jovens da primeira turma do Centro de Formação falaram sobre as suas experiências em São Luís, e recomendaram: “não tem como explicar, só você indo para entender o quanto a experiência é valiosa”, como apontou a jovem Soraia dos Santos.
Além das Regionais Tocantins e Pará, a Baixada já realizou o DRP. A próxima será em Mearim/Cocais, que tem previsão para o próximo dias 7 e 8 de junho. Segunda a secretária das Juventudes do MIQCB, Maria José Silva, a expectativa é de realizar o pacto geracional. “É a juventude que está aí hoje, quebrando coco, fazendo artesanato ou produzindo os derivados do babaçu que irão herdar a luta, nada mais justo do que incluí-los desde agora”.

Juventudes do Tocantins ao final do DRP

Representantes de 08 países integraram comitiva com o Miqcb para conhecer atuação das quebradeiras de coco na Regional Mearim, no Maranhão

Entre os dias 26 a 28 de maio, uma comitiva formada pelo Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu – MIQCB, Fundo Babaçu, The Tenure Facility e Norad – Agência Norueguesa para o Desenvolvimento, estiveram na Regional Mearim, no Maranhão, para conhecer o modo de vida das mulheres quebradeiras de coco babaçu, os grupos produtivos, a atuação das mulheres na defesa dos territórios e como o Fundo Babaçu contribui no fortalecimento de projetos agroextrativistas de geração de renda nos territórios. No total, a visita contou

A atividade contou com o apoio da Associação em Áreas de Assentamento no Estado do Maranhão – ASSEMA, Cooperativa dos Pequenos Produtores Agroextrativistas de Lago do Junco LTDA – COPPALJ, Associação Comunitária de Educação em Saúde e Agricultura (ACESA).

Para realização das atividades foram formados dois grupos. O primeiro conheceu experiências no Quilombo Monte Alegre, situado na cidade de São Luís Gonzaga, onde os parceiros conheceram uma parte do modo de vida da comunidade, que foi desde da busca do coco babaçu na floresta, até o momento cultural, onde foi apresentado a dança do Tambor de Crioula, típico da região e que é passado de geração para geração.

Para Aurélio Viana, representante da Tenure Facillity, o momento com a comunidade representou de forma lúdica, não só o modo de vida das pessoas beneficiadas pelos programas desenvolvidos pelo MIQCB e o Fundo Babaçu, como também a satisfação de ver o andamento da comunidade e seus saberes. “Para nós, estarmos aqui hoje, nos proporcionou, ver in loco o andamento das atividades que celebramos junto ao Fundo Babaçu e o MIQCB, estar aqui, ver a comunidade nos recebendo tão bem, fez com que pudéssemos sentir o dever sendo realizado”, disse.

Já no dia 28 a equipe visitou a Cooperativa dos Pequenos Produtores Agroextrativistas de Lago do Junco LTDA – COPPALJ, onde puderam observar atentamente todo o processo produtivo do óleo de babaçu. De acordo com a presidente da COPPALJ, Conceição de Maria a visita da equipe de apoiadores proporcionou um momento de troca de experiências e também de mostrar de forma prática o andamento dos projetos realizados pela Cooperativa. “Para nós esse momento foi de suma importância, pois pudemos apresentar nosso processo produtivo e suas etapas, desde do recolhimento da amêndoa do coco babaçu, até a forma como distribuímos nossos produtos”, afirmou.

Para a coordenadora geral do MIQCB, Maria Alaides a visita da equipe foi um momento de grande representação para o trabalho realizado pelo MIQCB. “Nós estamos aqui para mostrar a força das quebradeiras de coco babaçu na defesa de seus territórios e seus modos de trabalho, esperamos poder contar com os nossos apoiadores para continuarmos a desenvolver as nossas pautas, garantindo o nosso modo de vida e a nossa luta por um amplo debate sobre o meio socioambiental”, disse.

Projetos produtivos: A segunda equipe, logo nas primeiras horas da segunda-feira, 27, foi ao município de São Luís Gonzaga-MA, no Maranhão para conhecer projetos e ações exitosas que são apoiadas pelo Fundo Babaçu.

A primeira visita foi na Escola Família Agrícola de São Luís Gonzaga- EFA. A escola tem a modalidade pedagogia de formação por alternância. O espaço atende filhas e filhos de famílias rurais dos municípios de São Luís Gonzaga, Lago Verde, Alto Alegre e Bacabal. A instituição conta com o importante apoio do Fundo Babaçu, no que diz respeito a investimentos em capacitações.

Em seguida, a comitiva conheceu o belíssimo trabalho desenvolvido pelo grupo de mulheres quebradeiras de coco e artesãs, Josina’s de Fibra. As mulheres produzem várias peças (Bolsas, agendas, cadernos, jogos de pratos, sacolas) utilizando fibra de bananeira consorciadas com o coco babaçu. Recentemente o grupo foi contemplado com recurso do Fundo Babaçu para fortalecer a atividade produtiva.

“Estamos muito contentes em receber pessoas e organizações que nos apoiam. Ficamos felizes em mostrar nosso trabalho, que é feito de forma artesanal onde utilizamos fibras de bananeira e do coco babaçu. Só temos a agradecer esse incentivo do Fundo Babaçu e de todos os parceiros que nos apoiam”, declarou Cleone Silva, do grupo produtivo Josina de Fibras.

O Fundo Babaçu–  nasceu em 2012, da experiência do MIQCB com o Fundo Rotativo de Microcrédito, gerido e acessado pelas mulheres para o desenvolvimento de pequenos projetos agroextrativistas de geração de renda. Um dos principais objetivos do Fundo é captar recursos de caráter não reembolsável para ações de agricultura e de extrativismo de base agroecológica e economia solidária.

Romaria Padre Josimo contou com o envolvimento das quebradeiras de Imperatriz e Tocantins

A Romaria Padre Josimo, que aconteceu nos dias 18 e 19 de maio, começou para as quebradeiras de coco babaçu da região tocantina meses antes. Envolvidas na organização do evento, compareceram nas reuniões de planejamento e contribuíram com a dinâmica da realização. Tanto a Regional Imperatriz como Tocantins contribuíram com a alimentação, com mais de trinta quilos foram disponibilizados, além do apoio cultural e de cobertura em comunicação, inclusos aqui até mesmo o financiamento de materiais gráficos impressos.

Não seria diferente, uma vez que as quebradeiras desenvolveram sua aptidão pela luta com a contribuição de Josimo. Quando vivo, o padre ensinava sobre a mobilização e defesa da terra para quem de fato produz. Contra a expropriação e exploração dos trabalhadores, ele se movimentava entre a região do Bico do Papagaio, no Tocantins, e no sul do Maranhão, próximo a Imperatriz.

Seu assassinato provocou intenso levante dos trabalhadores rurais, e o Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB) é uma das múltiplas organizações civis que são sementes de Josimo, como relatou Francisca Pereira Vieira, quebradeira de coco babaçu, trabalhadora rural e coordenadora de base da Regional Tocantins, “o sangue dele virou semente”.

A vigília da romaria estava marcada para iniciar no sábado, a partir das 14h. No dia anterior, a equipe do MIQCB estava a postos para organizar a experiência gustativa da Ciranda Agroecológica, em que cada entidade articulada pela atividade do cultivo e coleta consciente poderia oferecer uma experiência aos visitantes. As quebradeiras também tinham uma sala exclusiva para proporcionar espaço de partilha, seja de informações ou de comercialização.

No sábado, desde cedo as mulheres se organizavam para recepcionar as companheiras que chegariam de longe. Na sala temática elas se reuniam em reencontros de luta. A Paróquia Cristo Salvador, em Imperatriz, estava decorada e preparada para receber as mais de 1800 pessoas registradas nas caravanas.

Logo que o sol cruzou o meio dia, ônibus, vans, carros, motos e pedestres preenchiam as ruas do entorno da paróquia e mais pessoas ocupavam o pátio repleto de cadeiras viradas para o palco, essa e outras atrações como exposições, atividades, degustações, feiras e até cinema eram disponibilizados.

O MIQCB abriu a programação de exibição do cinema da Romaria com o documentário “Onde tem mulher, tem floresta em pé”, uma produção que conta a história das guardiãs do babaçu nos quatro estados de atuação: Maranhão, Pará, Piauí e Tocantins. A assessora técnica e coordenadora de projetos do Movimento Sandra Regina destacou a importância de preservar as palmeiras e convidou as quebradeiras de coco presentes para se apresentarem ao público.

Sob aplausos, as mulheres se reuniram a frente para reforçar sua luta. A coordenadora de base Francisca falou ao público sobre a vida de uma mulher rural e agradeceu os ensinamentos de Josimo. “Outras pessoas contribuíram com a luta pela organização dos trabalhadores rurais, mas foi ele quem teve a sabedoria e paciência que nós precisávamos. O amor dele por nós ensinou até mesmo seus algozes, que ouvia o padre cantar em resposta às suas ameaças”.

Durante a tarde, na Ciranda de Experiência da Agroecologia, as quebradeiras de coco serviam bolo de mesocarpo e mostravam o processo de acabamento do coco para se tornar artesanato. A estudante Milena Caetano da Silva visitou o espaço e disse ter gostado bastante da ideia de colocar os produtos da terra em exposição. “A gente vai ao mercado e vê alguns produtos desses lá, mas não imagina o processo de se cultivar. Aqui deu pra ter uma ideia de como é o trabalho diário de plantar e colher”.

A TV Difusora, consorciada do SBT no Maranhão, estava cobrindo as atividades para veicular uma reportagem sobre a Romaria. As quebradeiras não ficaram de fora, Dona Francisca voltou ao protagonismo de compartilhar sua experiência ao lado do Padre Josimo. Na entrevista, ela relembrou como a vida era mais difícil e perigosa, “ele não achava que iria morrer, nós queríamos acompanhar ele porque a gente sabia quem é que estava perseguindo ele, mas ele não quis. No dia seguinte veio a notícia”, relatou ela com lágrimas nos olhos.

Ao final da tarde, depois do encerramento das programações diurnas, a igreja começou as apresentações culturais no palco. A equipe de louvor chamou a atenção do público com músicas que Josimo costumava cantar. Aos poucos, as cadeiras vermelhas no pátio abraçavam uma multidão que louvava em conjunto. Hora de levantar acampamento.

Em poucos minutos os produtos das quebradeiras de coco foram transferidos da sala do MIQCB para o pátio. As mesas dobráveis da CIMQCB logo se tornam feira ao ar livre e artesanatos, sabonetes, azeites e óleos ocupam a curiosidade de quem transitava por ali.

As quebradeiras também foram ao palco. A coordenadora Francisca se juntou à quebradeira Maria Gerusa Rocha para cantar Xambioá, de Itamar Correia. durante toda a noite de celebração, as quebradeiras estiveram no palco, ora para recitar poesias, ora para proferir palavras de ordem. Maria Senhora Carvalho, por exemplo, fez um resgate histórico sobre a luta.

“Nós já lutávamos antes do Josimo chegar, mas os ensinamentos dele ficaram para a história. A gente já queria poder produzir sem medo, ter uma vida digna. A gente sabia que era o justo. Do dia que ele chegou até seu sangue ser derramado nós nos aprimoramos, aprendemos que conseguimos nos mobilizar, que não precisamos lutar só”, contou Maria Senhora.

Durante as apresentações, o grupo de teatro da Pastoral Jovem encenou o assassinato de Josimo, o que fez Francisca se emocionar muito. Com olhos marejados ela declarou, “não fosse a ganância era para ele tá vivo, aqui entre nós”. Outro momento marcante foi a oração, “sentir todas essas pessoas emanando sua fé é arrepiante, principalmente em defesa de um propósito tão justo”, declarou a participante Selma Araujo Lima, participante e moradora das proximidades da Paróquia onde aconteceu a vigília.

Além de ter sido a apresentadora das atrações da celebração, Rosalva Gomes, artesã do babaçu e assessora da Cooperativa Interestadual das Mulheres Quebradeiras de Coco Babaçu (CIMQCB), também encerrou a noite com uma canção autoral. “Um padre menino” narra a forma pacífica com que Josimo encarava a vida, até mesmo quando ameaçado, ao invés de se defender ele cantava. Sua voz era a sua proteção.

A vigília da madrugada ficou sob tutela da juventude católica. Dada certa hora se via bocejos, cochiladas e até algumas companheiras aconchegadas na sala do MIQCB.

Foi só no raiar do dia que as atividades foram retomadas. O sol saia por detrás do palco enquanto a missa era iniciada. A música aproximava o povo, o padre lançava preces e o público respondia. Essa orquestra da fé se repetia até se aproximar do momento da caminhada.

A caminhada foi tomando forma na porta da igreja. Rosalva Gomes subiu ao trio para contribuir com a intermediação e apresentação das pautas e bandeiras defendidas pelos romeiros e romeiras. As quebradeiras de coco logo se misturaram pelo meio do povo. Até a balsa houveram duas paradas para intervenção, as quebradeiras ecoaram suas vozes em ambas as ocasiões.

A quebradeira Maria Gerusa Rocha abriu os pronunciamentos com a história e propósito de luta do Padre Josimo. “Desde que ele chegou ele falava que precisávamos nos organizar. Lembro ainda hoje de sua voz cantando: ‘Põe a semente na terra, não será em vão’. Ele queria um mundo fraterno”.

“Como será o nosso futuro?”, perguntou a assessora da Regional Tocantins do MIQCB Elizete Araújo se pronunciou também como GT das Juventudes Rurais do Bico, ao reforçar a necessidade de preservar o meio ambiente.”Nós aprendemos a defender a nossa terra com Josimo, queremos viver nela em paz, por isso continuamos a luta”.

Depois da balsa, os romeiros e romeiras seguiram em marcha para o local de calvário de Padre Josimo. Em frente à Cúria Diocesana de Imperatriz, nas escadarias que eram de madeira, hoje jaz escadas de pavimento e placa de homenagem ao homem que teve sua vida arrebatada pela ganância dos grandes proprietários de terras.

“Pelas mãos da maldade humana a vida de Josimo foi ceifada, mas pelas mãos calejadas do trabalhador ele segue vivo em cada um de nós”, declarou Espedita dos Santos Pereira. De frente para a Cúria ela estendeu seus braços em prece pela vida e luta do Padre, em oração ela clamou “esteja em paz de onde estiver”.

A Romaria é uma organização popular, mas é primordialmente um evento realizado pela igreja católica. A edição de 2024 é a primeira presencial pós pandemia. O organizador indicado pela igreja, o frei Xavier Plassat, disse que recebeu essa tarefa com alegria, principalmente porque é uma realização que mexe com a própria origem de sua vocação.

“Essa peregrinação tem dimensão muito forte, ela me lembra a motivação principal da minha vida. Além disso, percebi um envolvimento maior da juventude, uma vontade de conhecer e se inspirar. Precisamos ser exemplos positivos para eles, se perguntando o que Jesus faria diante da nossa realidade, assim como fez Josimo em seu tempo. Qual seria a forma que eles nos ajudariam a encarar nossos desafios, de reinventar a história segundo a fidelidade do que foi vivido pelos mártires”.

Violência contra a mulher é tema em encontro com o território Santa Rosa/PI

Neste sábado (18), a coordenação do MIQCB, a sua assessoria e a Associação das Mulheres Trabalhadoras do Coco Babaçu (AMTCOB), filial Piauí, estiveram presentes no território Santa Rosa, o tema do encontro de hoje foi o da violência contra a mulher nos territórios uma ação apoiada pelo Fundo Elas. Um debate necessário com as Quebradeiras de Coco Babaçu, pois muitas vezes esse conteúdo não integra o dia a dia do território que elas vivem.

Uma troca de experiências e de acolhimento sobre um tema tão caro para a vida das mulheres, violências psicológica, patrimonial, física, moral e sexual. Foram relatos que emocionaram e entregaram a real necessidade da informação sobre o combate à violência contra a mulher no território, como a Lei Maria da Penha, Lei criada em 2006, que garante e protege a mulher em situações de violência.

Já no período da tarde, os representantes dos territórios puderam elaborar uma agenda junto à coordenação do MIQCB, com o objetivo de discutir a Lei Babaçu Livre, aprovada no Estado do Piauí. As ações são referentes ao projeto Baqueli, que visa a regularização dos territórios e garante os direitos das Quebradeiras de Coco Babaçu e seu modo tradicional de vida.

Para a coordenadora do MIQCB, Janete Sousa, o momento foi de aprendizado para ambos os públicos. “Viemos aqui na intenção de trocar informações e garantir uma maior integração com a comunidade e hoje saímos daqui com a sensação de dever cumprido, uma vez que a comunidade aceitou tão bem a nossa atividade e nos proporcionou esse momento de troca de experiências e vivências”, disse.

Dona Raimunda, moradora do território Santa Rosa, avaliou a atividade como uma experiência única e de conhecimento. “Nós viemos aqui hoje para termos mais uma noção do nosso território, para termos uma integração e estou feliz de poder participar desse momento com meus colegas e vizinhos”, disse.

Ao final da atividade, os territórios puderam apontar as datas para a mobilização local e assim construir agendas comuns com o MIQCB e a AMTCOB para a processo de reconhecimento do território e também da comunidade como parte de um território tradicional.

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