Cerca de 30 jovens filhos/as, netos/as e quebradeiras de coco babaçu do MIQCB regional Piauí, participaram do primeiro Encontro de Juventudes para a aplicação do Diagnóstico Rápido Participativo-DRP. O encontro ocorreu na comunidade do Tapuio, próximo a cidade de Esperantina/PI, entre os dias 20 e 21 de junho.
Para a assessora de juventudes do MIQCB, Carla Pinheiro, a atividade compõe um passo importante para o mapeamento das juventudes que vivem e atuam no território das Quebradeiras de coco babaçu. “O MIQCB tem a grande missão que é fortalecer o perfil social e político da vida desses jovens, compreendendo suas diversidades, particularidades, dificuldades, anseios, nós estamos felizes de estarmos aqui no Piauí realizando essa atividade, rica de experiências e aprendizado “, disse.
Já para a jovem Cassandra Carvalho de 21 anos, que mora na Vila São Pedro, município do Morro do Chapéu, a atividade foi bastante rica e com muito aprendizado.” do encontro foi maravilhoso, houve bastante troca de experiência, muito aprendizado, e eu acho que nós jovens temos que ter mais espaço como esses”, disse.
O jovem Diego Silva de 17 anos, que mora na Chapada da Limpeza, o encontro foi importante pois conseguiu traduzir o que ele sempre dialogou em casa, com sua mãe e sua avó, mas agora para mais jovens. “Acho importante esse diálogo sobre preservar as nossas palmeiras, as histórias que se passaram da minha avó para a minha mãe. Minha avó criou 18 filhos e boa parte da renda ela tirou do coco babaçu, porque o marido dela, não ajudava muito em casa para comprar comida. Minha avó criou uma geração de pessoas, com ajuda do coco babaçu, isso é um orgulho para mim, é um orgulho de conhecer um pouco mais a história dela, disse.
Estiveram presentes jovens dos territórios, Jatobá, Canto Grande, Chapada da Sindá, Vila São Pedro, Chapada da Limpeza, Fortaleza, Tapuio, Esperantina, Cabeceiras, Santa Rosa, Vila Esperança e Riacho de Santa Maria.








A Associação das Mulheres Trabalhadoras do Coco Babaçu (AMTCOB), com apoio do Fundo Babaçu, realizou nesta semana (18,19 e 20), a entrega dos produtos para o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) nas cidades de Esperantina, Madeiro, Joca Marques, Luzilândia e São João do Arraial.
As entregas foram para o Centro de Assistência Social (CRAS) das cidades respectivas cidades, a Ação Social Esperantinense (Asesp) e a Escola Família Agrícola Cocais (EFA). Ao todo foram entregues 1200 litros de azeite de babaçu, 93 kg de farinha de babaçu, 300kg de bolo de goma, 320kg de beiju, 33kg de biscoito, 250kg de bolo de milho, 250kg de abobora, 37kg de acerola e 35 kg de limão.
Para a presidente do Cimqcb, Helena Gomes essa ação reflete o trabalho das mulheres quebradeiras de coco babaçu cooperativadas, “nosso fluxo se define em trazer os produtos para a unidade central e preparamos, com rótulos e ajustes nas embalagens, para serem entregues no CRAS de Esperantina”, disse.
O PAA realiza a compra direta de alimentos de agricultores familiares, sem necessidade de licitação e os destina a pessoas em situação de insegurança alimentar e nutricional, bem como à rede socioassistencial, equipamentos públicos de segurança alimentar e nutricional e à rede pública e filantrópica de ensino. O PAA tem como objetivo fortalecer a agricultura familiar, gerando emprego, renda e desenvolvendo a economia local, e de promover o acesso aos alimentos, contribuindo para reduzir a insegurança alimentar e nutricional.


A Articulação Tocantinense de Agroecologia (ATA) realizou, entre os dias 06 e 08 de junho em Palmas-TO, na Escola Municipal Fidêncio Bogo, espaço de educação do campo, o 6° Encontro Tocantinense de Agroecologia. O evento reuniu camponeses e camponesas, quebradeiras de coco babaçu, indígenas, quilombolas, povos tradicionais, movimentos sociais, defensores e defensoras de direitos humanos, com o objetivo de discutir o fortalecimento da agroecologia.
O encontro teve início na quinta-feira (06), às 14h, com a realização de uma Audiência Pública com o Ministério Público Federal (MPF), Defensoria Pública do Tocantins (DPE-TO) e Ministério Público do Estado do Tocantins (MPE-TO) para discutir a questão agrária no estado, a realidade e a luta dos povos do campo.
Foram mais de cinco horas de discussão sobre a Reforma Agrária no Estado, dentre as questões levantadas estava o Projeto de Lei (PL) nº 1.199, de autoria do Senador Eduardo Gomes. Se aprovada, determinará que as terras da União sejam devolvidas ao Estado, sob a tutela do Instituto de Terras do Tocantins (Itertins) para realizar a redistribuição.

A referida lei foi defendida pelo agronegócio, em contrapartida aos posicionamentos contrários dos movimentos sociais. As terras em questão já estão ocupadas há décadas pelos trabalhadores rurais, quilombolas e indígenas. Muitas comunidades tradicionais ainda não conseguiram o seu direito à terra garantido, como explica a advogada do Movimento Interestadual de Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB) Karla Dutra.
“Estamos falando de famílias que estão há mais de três décadas lutando pelo direito à terra. Territórios esses que já existiam muito antes de se dividir o Estado de Goiás para criação do Tocantins. Sem a devida regularização, esses povos ficarão à mercê da redistribuição de um órgão que pode não reconhecer seus direitos”, declarou a advogada.
Outro questionamento imposto sobre o PL é o fato de que nenhuma entidade de organização social foi convidada a contribuir. Dona Francisca Pereira Vieira, que é coordenadora de base da Regional Tocantins do MIQCB ainda provocou: “não é de hoje que nós buscamos diálogo com o governo, não. Eu saí lá do Bico do Papagaio dentro de uma van para estar aqui e descobrir que querem descer essa lei goela abaixo em nós, que somos trabalhadores rurais”.
Nos demais dias de encontro, a programação contou com a realização de oficinas, mesas de diálogos, feiras e um conjunto de outras atividades que contaram com a participação de aproximadamente 400 pessoas de todas as regiões do Estado. Um dos temas centrais discutidos nesta edição foi a necessidade de elaboração da Política Estadual de Agroecologia e estruturação de estratégias para aumentar a produção e o consumo de produtos agroecológicos no Tocantins.
O encontro teve um conjunto de encaminhamentos como a construção do Plano de atuação da ATA para 2024 e a criação de grupos de trabalho para acompanhamento das seguintes pautas: Grupo 1 – Terra e Território: discutir a legislação do estado sobre regularização fundiária; Grupo 2 – Educação do Campo: garantir e construir um conjunto de documentos e normativas que avancem na educação do campo; Grupo 3 – Mercado de Comercialização e Agricultura; e Grupo 4 – Política Estadual de Agroecologia.
Maria Aparecida Apinajé, indígena da aldeia Prata, participou da oficina de artesanato e contou que foi interessante aprender sobre mais uma possibilidade de utilização do babaçu. “Eu quebro o coco desde criança. O babaçu sempre foi utilizado como forma de alimento para nós. Mas o artesanato foi uma boa novidade”.

A contribuição da juventude como formadores também foi destaque, Taslane da Conceição Carneiro, jovem pindova do MIQCB, compôs a equipe que ministrou a oficina sobre Racismo Ambiental, “tem sido muito bom aprender e compartilhar experiências, em momentos assim descubro o quanto já aprendi e posso repassar e o quanto ainda tenho o que aprender”.
Jorlando Ferreira Rocha, quilombola da Ilha de São Vicente, coordenador de Território da Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Tocantins (COEQTO) e representante da ATA, destacou a importância do encontro para discussão da segurança alimentar, produção agroecológica, preservação ambiental e regularização territorial.
“Os povos indígenas, quilombolas, quebradeiras de coco e agricultores familiares vem preservando e garantindo para o povo do campo e da cidade uma produção saudável. Então, o encontro de agroecologia proporciona o fortalecimento dessas comunidades, a partir da discussão da produção e da sustentabilidade dentro dos territórios”, disse.
Para Edivânia S. de Souza, conhecida como Vânia do MST, integrante com mais de 28 anos de luta dentro do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, no município de Palmeirante-TO, o encontro de agroecologia proporcionou a troca de experiência entre diferentes movimentos do campo e o fortalecimento da luta pela terra.
“Nós do MST viemos para o encontro com o intuito de aprender ainda mais com os companheiros de outros movimentos. É muito importante a discussão da agroecologia, pois sem a terra, não tem como a gente produzir nada. Então, acreditamos que com esse movimento, a gente vai fazer a diferença”, finalizou.

A Articulação Tocantinense de Agroecologia vem se articulando desde 2002, quando aconteceu o primeiro Encontro Nacional de Agroecologia, onde participaram diversas organizações do estado. A partir desse encontro, em 2015, se consolidou a Articulação Tocantinense de Agroecologia, que vem se reunindo com o objetivo de fortalecer a agroecologia e pautar a luta pela terra no Tocantins.
Participantes
Participaram do Encontro Tocantinense de Agroecologia as entidades: Alternativas para a Pequena Agricultura no Tocantins (APA-TO); Articulação Tocantinense de Agroecologia (ATA); Associação Regional das Mulheres Trabalhadoras Rurais do Bico do Papagaio (ASMUBIP); Cáritas Brasileira; Comissão Pastoral da Terra (CPT); Comunidade de Saúde, Desenvolvimento e Educação (CONSAUDE); Conselho Indigenista Missionário (CIMI); Cooperativa Interestadual de Quebradeiras de Coco Babaçu (CIMQCB); Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Tocantins (COEQTO); Eco Terra; Escola Família Agrícola do Bico do Papagaio (EFA BIP); Escola Família Agrícola de Porto Nacional (EFA Porto); Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Tocantins (FETAET); Instituto Clima e Sociedade (iCS); Movimento dos Atingidos por Barragens; Movimento Interestadual de Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB); Movimento Sem Terra (MST); Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (STTR); Tenure Facility; União das Cooperativas de Agricultura Familiar e Economia Solidária do Estado do Tocantins (Unicafes); e Vozes do Bico.

O Movimento Interestadual de Quebradeiras de Coco Babaçu iniciou a aplicação do Diagnóstico Rápido Participativo (DRP) nas regionais. No último final de semana, entre os dias 24 e 27 de maio, as Regionais Tocantins e Pará receberam a assessora de Juventudes Carla Pinheiro para ouvir os jovens e promover conexões entre a realidade das comunidades e o planejamento estratégico que irá definir as próximas atividades.
A ideia é preparar um conjunto de ações para incluir as demandas das juventudes nas prioridades do MIQCB e da Cooperativa Interestadual de Mulheres Quebradeiras de Coco Babaçu (CIMQCB). Isso porque as quebradeiras de coco entenderam que a inserção das juventudes nas pautas do Movimento é necessária e urgente.
No Tocantins, o DRP aconteceu na sexta, 24, e no sábado, 25. As juventudes reunidas participaram de dinâmicas que incentivaram a interação, a reflexão e o trabalho em equipe. “Não é só chegar e perguntar o que eles querem, primeiro precisamos preparar o território para firmar acordos, resgatar histórias, ensinar sobre a importância da luta em defesa dos babaçuais e propor que se envolvam”, completou Carla.

“Estou feliz que eles aceitaram o convite do MIQCB para contribuir”, declarou a coordenadora de base da Regional Tocantins Maria Conceição Barbosa da Silva, que esteve nos dois dias de atividades para compartilhar sua experiência na luta. “Os conflitos mais acirrados aconteceram na década de 80, foi aí que começou a perseguição aos trabalhadores rurais. Nós sentimos a necessidade de organizar a luta para viver”.
Aprender sobre a história de sua origem conscientiza as juventudes a ingressar na luta, por isso a presença das ‘capotas’, assim chamadas as lideranças atuais no MIQCB. Além disso, oportuniza às quebradeiras também conhecerem os atuais desafios sociais enfrentados pelas juventudes. “A maior herança que vocês podem receber é a nossa luta, porque até a terra pode vir alguém e tirar”, provocou a coordenadora de base da Regional Tocantins Maria Silvania Nunes da Paixão.
Ambas as coordenadoras ouviram as construções feitas pelas juventudes. Na aplicação da dinâmica “Tronco, Cortar e Regar”, que consistia em identificar o que é fundamental para as juventudes, o que deve ser eliminado para que a continuidade da luta conte com o envolvimento juvenil e o que deve ser incentivado para que a inclusão deles seja bem sucedida.
Para o jovem Matheus dos Santos Filho, que veio do Projeto de Assentamento II Setor Sede do município de Araguatins, disse que este encontro também contribui para o fortalecimento da permanência dos jovens no campo. “A troca de saberes possibilita o enriquecimento da bagagem cultural e de construção da identidade das juventudes do Bico do Papagaio, principalmente pela forma coletiva como foi feito”.
No Pará, as juventudes se reuniram nos dias 26 e 27 de maio. Os momentos de maior participação foram o resgate histórico e a apresentação de suas comunidades. Embora o diagnóstico também tenha sido bem aproveitado pelos participantes.

Enquanto a coordenadora executiva da Regional Pará, Cledeneuza Bizerra, contava sobre seu ingresso na luta, os motivos que a fizeram perseverar até os dias de hoje e o propósito de continuar trabalhando por um futuro melhor para as quebradeiras de coco, as juventudes ouviam atentamente. Relatos como a violência e a intimidação contra as quebradeiras de coco encheram os jovens de dúvidas.
“A gente enfrentou a violência dentro de casa e a discriminação na rua. Hoje, temos maior liberdade para trabalhar. Tudo que é impedimento nós resolvemos na conversa. Ainda sofremos ameaças por causa da nossa profissão, mas como estamos organizadas conseguimos lidar com as situações de forma rápida e forte”, relatou Cledeneuza.
Uma pergunta após a outra era respondida pelas curingas presentes, Iracema Vieira Félix, liderança tronco do MIQCB, contou que em sua jornada na luta conheceu vários países. “Muitos jovens têm vergonha da nossa profissão, mas foi ela que me levou pro mundo. Foi do coco que eu vivi, do coco criei meus filhos. Se a gente se unir todo mundo vai passar a conhecer o babaçu e a respeitar ele, por isso que eu continuo nessa caminhada”.
Depois da conversa com as curingas, os jovens da primeira turma do Centro de Formação falaram sobre as suas experiências em São Luís, e recomendaram: “não tem como explicar, só você indo para entender o quanto a experiência é valiosa”, como apontou a jovem Soraia dos Santos.
Além das Regionais Tocantins e Pará, a Baixada já realizou o DRP. A próxima será em Mearim/Cocais, que tem previsão para o próximo dias 7 e 8 de junho. Segunda a secretária das Juventudes do MIQCB, Maria José Silva, a expectativa é de realizar o pacto geracional. “É a juventude que está aí hoje, quebrando coco, fazendo artesanato ou produzindo os derivados do babaçu que irão herdar a luta, nada mais justo do que incluí-los desde agora”.

Entre os dias 26 a 28 de maio, uma comitiva formada pelo Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu – MIQCB, Fundo Babaçu, The Tenure Facility e Norad – Agência Norueguesa para o Desenvolvimento, estiveram na Regional Mearim, no Maranhão, para conhecer o modo de vida das mulheres quebradeiras de coco babaçu, os grupos produtivos, a atuação das mulheres na defesa dos territórios e como o Fundo Babaçu contribui no fortalecimento de projetos agroextrativistas de geração de renda nos territórios. No total, a visita contou
A atividade contou com o apoio da Associação em Áreas de Assentamento no Estado do Maranhão – ASSEMA, Cooperativa dos Pequenos Produtores Agroextrativistas de Lago do Junco LTDA – COPPALJ, Associação Comunitária de Educação em Saúde e Agricultura (ACESA).
Para realização das atividades foram formados dois grupos. O primeiro conheceu experiências no Quilombo Monte Alegre, situado na cidade de São Luís Gonzaga, onde os parceiros conheceram uma parte do modo de vida da comunidade, que foi desde da busca do coco babaçu na floresta, até o momento cultural, onde foi apresentado a dança do Tambor de Crioula, típico da região e que é passado de geração para geração.
Para Aurélio Viana, representante da Tenure Facillity, o momento com a comunidade representou de forma lúdica, não só o modo de vida das pessoas beneficiadas pelos programas desenvolvidos pelo MIQCB e o Fundo Babaçu, como também a satisfação de ver o andamento da comunidade e seus saberes. “Para nós, estarmos aqui hoje, nos proporcionou, ver in loco o andamento das atividades que celebramos junto ao Fundo Babaçu e o MIQCB, estar aqui, ver a comunidade nos recebendo tão bem, fez com que pudéssemos sentir o dever sendo realizado”, disse.
Já no dia 28 a equipe visitou a Cooperativa dos Pequenos Produtores Agroextrativistas de Lago do Junco LTDA – COPPALJ, onde puderam observar atentamente todo o processo produtivo do óleo de babaçu. De acordo com a presidente da COPPALJ, Conceição de Maria a visita da equipe de apoiadores proporcionou um momento de troca de experiências e também de mostrar de forma prática o andamento dos projetos realizados pela Cooperativa. “Para nós esse momento foi de suma importância, pois pudemos apresentar nosso processo produtivo e suas etapas, desde do recolhimento da amêndoa do coco babaçu, até a forma como distribuímos nossos produtos”, afirmou.
Para a coordenadora geral do MIQCB, Maria Alaides a visita da equipe foi um momento de grande representação para o trabalho realizado pelo MIQCB. “Nós estamos aqui para mostrar a força das quebradeiras de coco babaçu na defesa de seus territórios e seus modos de trabalho, esperamos poder contar com os nossos apoiadores para continuarmos a desenvolver as nossas pautas, garantindo o nosso modo de vida e a nossa luta por um amplo debate sobre o meio socioambiental”, disse.
Projetos produtivos: A segunda equipe, logo nas primeiras horas da segunda-feira, 27, foi ao município de São Luís Gonzaga-MA, no Maranhão para conhecer projetos e ações exitosas que são apoiadas pelo Fundo Babaçu.
A primeira visita foi na Escola Família Agrícola de São Luís Gonzaga- EFA. A escola tem a modalidade pedagogia de formação por alternância. O espaço atende filhas e filhos de famílias rurais dos municípios de São Luís Gonzaga, Lago Verde, Alto Alegre e Bacabal. A instituição conta com o importante apoio do Fundo Babaçu, no que diz respeito a investimentos em capacitações.
Em seguida, a comitiva conheceu o belíssimo trabalho desenvolvido pelo grupo de mulheres quebradeiras de coco e artesãs, Josina’s de Fibra. As mulheres produzem várias peças (Bolsas, agendas, cadernos, jogos de pratos, sacolas) utilizando fibra de bananeira consorciadas com o coco babaçu. Recentemente o grupo foi contemplado com recurso do Fundo Babaçu para fortalecer a atividade produtiva.
“Estamos muito contentes em receber pessoas e organizações que nos apoiam. Ficamos felizes em mostrar nosso trabalho, que é feito de forma artesanal onde utilizamos fibras de bananeira e do coco babaçu. Só temos a agradecer esse incentivo do Fundo Babaçu e de todos os parceiros que nos apoiam”, declarou Cleone Silva, do grupo produtivo Josina de Fibras.
O Fundo Babaçu– nasceu em 2012, da experiência do MIQCB com o Fundo Rotativo de Microcrédito, gerido e acessado pelas mulheres para o desenvolvimento de pequenos projetos agroextrativistas de geração de renda. Um dos principais objetivos do Fundo é captar recursos de caráter não reembolsável para ações de agricultura e de extrativismo de base agroecológica e economia solidária.












A Romaria Padre Josimo, que aconteceu nos dias 18 e 19 de maio, começou para as quebradeiras de coco babaçu da região tocantina meses antes. Envolvidas na organização do evento, compareceram nas reuniões de planejamento e contribuíram com a dinâmica da realização. Tanto a Regional Imperatriz como Tocantins contribuíram com a alimentação, com mais de trinta quilos foram disponibilizados, além do apoio cultural e de cobertura em comunicação, inclusos aqui até mesmo o financiamento de materiais gráficos impressos.
Não seria diferente, uma vez que as quebradeiras desenvolveram sua aptidão pela luta com a contribuição de Josimo. Quando vivo, o padre ensinava sobre a mobilização e defesa da terra para quem de fato produz. Contra a expropriação e exploração dos trabalhadores, ele se movimentava entre a região do Bico do Papagaio, no Tocantins, e no sul do Maranhão, próximo a Imperatriz.
Seu assassinato provocou intenso levante dos trabalhadores rurais, e o Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB) é uma das múltiplas organizações civis que são sementes de Josimo, como relatou Francisca Pereira Vieira, quebradeira de coco babaçu, trabalhadora rural e coordenadora de base da Regional Tocantins, “o sangue dele virou semente”.

A vigília da romaria estava marcada para iniciar no sábado, a partir das 14h. No dia anterior, a equipe do MIQCB estava a postos para organizar a experiência gustativa da Ciranda Agroecológica, em que cada entidade articulada pela atividade do cultivo e coleta consciente poderia oferecer uma experiência aos visitantes. As quebradeiras também tinham uma sala exclusiva para proporcionar espaço de partilha, seja de informações ou de comercialização.
No sábado, desde cedo as mulheres se organizavam para recepcionar as companheiras que chegariam de longe. Na sala temática elas se reuniam em reencontros de luta. A Paróquia Cristo Salvador, em Imperatriz, estava decorada e preparada para receber as mais de 1800 pessoas registradas nas caravanas.
Logo que o sol cruzou o meio dia, ônibus, vans, carros, motos e pedestres preenchiam as ruas do entorno da paróquia e mais pessoas ocupavam o pátio repleto de cadeiras viradas para o palco, essa e outras atrações como exposições, atividades, degustações, feiras e até cinema eram disponibilizados.
O MIQCB abriu a programação de exibição do cinema da Romaria com o documentário “Onde tem mulher, tem floresta em pé”, uma produção que conta a história das guardiãs do babaçu nos quatro estados de atuação: Maranhão, Pará, Piauí e Tocantins. A assessora técnica e coordenadora de projetos do Movimento Sandra Regina destacou a importância de preservar as palmeiras e convidou as quebradeiras de coco presentes para se apresentarem ao público.

Sob aplausos, as mulheres se reuniram a frente para reforçar sua luta. A coordenadora de base Francisca falou ao público sobre a vida de uma mulher rural e agradeceu os ensinamentos de Josimo. “Outras pessoas contribuíram com a luta pela organização dos trabalhadores rurais, mas foi ele quem teve a sabedoria e paciência que nós precisávamos. O amor dele por nós ensinou até mesmo seus algozes, que ouvia o padre cantar em resposta às suas ameaças”.
Durante a tarde, na Ciranda de Experiência da Agroecologia, as quebradeiras de coco serviam bolo de mesocarpo e mostravam o processo de acabamento do coco para se tornar artesanato. A estudante Milena Caetano da Silva visitou o espaço e disse ter gostado bastante da ideia de colocar os produtos da terra em exposição. “A gente vai ao mercado e vê alguns produtos desses lá, mas não imagina o processo de se cultivar. Aqui deu pra ter uma ideia de como é o trabalho diário de plantar e colher”.
A TV Difusora, consorciada do SBT no Maranhão, estava cobrindo as atividades para veicular uma reportagem sobre a Romaria. As quebradeiras não ficaram de fora, Dona Francisca voltou ao protagonismo de compartilhar sua experiência ao lado do Padre Josimo. Na entrevista, ela relembrou como a vida era mais difícil e perigosa, “ele não achava que iria morrer, nós queríamos acompanhar ele porque a gente sabia quem é que estava perseguindo ele, mas ele não quis. No dia seguinte veio a notícia”, relatou ela com lágrimas nos olhos.
Ao final da tarde, depois do encerramento das programações diurnas, a igreja começou as apresentações culturais no palco. A equipe de louvor chamou a atenção do público com músicas que Josimo costumava cantar. Aos poucos, as cadeiras vermelhas no pátio abraçavam uma multidão que louvava em conjunto. Hora de levantar acampamento.

Em poucos minutos os produtos das quebradeiras de coco foram transferidos da sala do MIQCB para o pátio. As mesas dobráveis da CIMQCB logo se tornam feira ao ar livre e artesanatos, sabonetes, azeites e óleos ocupam a curiosidade de quem transitava por ali.
As quebradeiras também foram ao palco. A coordenadora Francisca se juntou à quebradeira Maria Gerusa Rocha para cantar Xambioá, de Itamar Correia. durante toda a noite de celebração, as quebradeiras estiveram no palco, ora para recitar poesias, ora para proferir palavras de ordem. Maria Senhora Carvalho, por exemplo, fez um resgate histórico sobre a luta.
“Nós já lutávamos antes do Josimo chegar, mas os ensinamentos dele ficaram para a história. A gente já queria poder produzir sem medo, ter uma vida digna. A gente sabia que era o justo. Do dia que ele chegou até seu sangue ser derramado nós nos aprimoramos, aprendemos que conseguimos nos mobilizar, que não precisamos lutar só”, contou Maria Senhora.
Durante as apresentações, o grupo de teatro da Pastoral Jovem encenou o assassinato de Josimo, o que fez Francisca se emocionar muito. Com olhos marejados ela declarou, “não fosse a ganância era para ele tá vivo, aqui entre nós”. Outro momento marcante foi a oração, “sentir todas essas pessoas emanando sua fé é arrepiante, principalmente em defesa de um propósito tão justo”, declarou a participante Selma Araujo Lima, participante e moradora das proximidades da Paróquia onde aconteceu a vigília.
Além de ter sido a apresentadora das atrações da celebração, Rosalva Gomes, artesã do babaçu e assessora da Cooperativa Interestadual das Mulheres Quebradeiras de Coco Babaçu (CIMQCB), também encerrou a noite com uma canção autoral. “Um padre menino” narra a forma pacífica com que Josimo encarava a vida, até mesmo quando ameaçado, ao invés de se defender ele cantava. Sua voz era a sua proteção.
A vigília da madrugada ficou sob tutela da juventude católica. Dada certa hora se via bocejos, cochiladas e até algumas companheiras aconchegadas na sala do MIQCB.

Foi só no raiar do dia que as atividades foram retomadas. O sol saia por detrás do palco enquanto a missa era iniciada. A música aproximava o povo, o padre lançava preces e o público respondia. Essa orquestra da fé se repetia até se aproximar do momento da caminhada.
A caminhada foi tomando forma na porta da igreja. Rosalva Gomes subiu ao trio para contribuir com a intermediação e apresentação das pautas e bandeiras defendidas pelos romeiros e romeiras. As quebradeiras de coco logo se misturaram pelo meio do povo. Até a balsa houveram duas paradas para intervenção, as quebradeiras ecoaram suas vozes em ambas as ocasiões.
A quebradeira Maria Gerusa Rocha abriu os pronunciamentos com a história e propósito de luta do Padre Josimo. “Desde que ele chegou ele falava que precisávamos nos organizar. Lembro ainda hoje de sua voz cantando: ‘Põe a semente na terra, não será em vão’. Ele queria um mundo fraterno”.
“Como será o nosso futuro?”, perguntou a assessora da Regional Tocantins do MIQCB Elizete Araújo se pronunciou também como GT das Juventudes Rurais do Bico, ao reforçar a necessidade de preservar o meio ambiente.”Nós aprendemos a defender a nossa terra com Josimo, queremos viver nela em paz, por isso continuamos a luta”.
Depois da balsa, os romeiros e romeiras seguiram em marcha para o local de calvário de Padre Josimo. Em frente à Cúria Diocesana de Imperatriz, nas escadarias que eram de madeira, hoje jaz escadas de pavimento e placa de homenagem ao homem que teve sua vida arrebatada pela ganância dos grandes proprietários de terras.

“Pelas mãos da maldade humana a vida de Josimo foi ceifada, mas pelas mãos calejadas do trabalhador ele segue vivo em cada um de nós”, declarou Espedita dos Santos Pereira. De frente para a Cúria ela estendeu seus braços em prece pela vida e luta do Padre, em oração ela clamou “esteja em paz de onde estiver”.
A Romaria é uma organização popular, mas é primordialmente um evento realizado pela igreja católica. A edição de 2024 é a primeira presencial pós pandemia. O organizador indicado pela igreja, o frei Xavier Plassat, disse que recebeu essa tarefa com alegria, principalmente porque é uma realização que mexe com a própria origem de sua vocação.
“Essa peregrinação tem dimensão muito forte, ela me lembra a motivação principal da minha vida. Além disso, percebi um envolvimento maior da juventude, uma vontade de conhecer e se inspirar. Precisamos ser exemplos positivos para eles, se perguntando o que Jesus faria diante da nossa realidade, assim como fez Josimo em seu tempo. Qual seria a forma que eles nos ajudariam a encarar nossos desafios, de reinventar a história segundo a fidelidade do que foi vivido pelos mártires”.

Neste sábado (18), a coordenação do MIQCB, a sua assessoria e a Associação das Mulheres Trabalhadoras do Coco Babaçu (AMTCOB), filial Piauí, estiveram presentes no território Santa Rosa, o tema do encontro de hoje foi o da violência contra a mulher nos territórios uma ação apoiada pelo Fundo Elas. Um debate necessário com as Quebradeiras de Coco Babaçu, pois muitas vezes esse conteúdo não integra o dia a dia do território que elas vivem.
Uma troca de experiências e de acolhimento sobre um tema tão caro para a vida das mulheres, violências psicológica, patrimonial, física, moral e sexual. Foram relatos que emocionaram e entregaram a real necessidade da informação sobre o combate à violência contra a mulher no território, como a Lei Maria da Penha, Lei criada em 2006, que garante e protege a mulher em situações de violência.
Já no período da tarde, os representantes dos territórios puderam elaborar uma agenda junto à coordenação do MIQCB, com o objetivo de discutir a Lei Babaçu Livre, aprovada no Estado do Piauí. As ações são referentes ao projeto Baqueli, que visa a regularização dos territórios e garante os direitos das Quebradeiras de Coco Babaçu e seu modo tradicional de vida.
Para a coordenadora do MIQCB, Janete Sousa, o momento foi de aprendizado para ambos os públicos. “Viemos aqui na intenção de trocar informações e garantir uma maior integração com a comunidade e hoje saímos daqui com a sensação de dever cumprido, uma vez que a comunidade aceitou tão bem a nossa atividade e nos proporcionou esse momento de troca de experiências e vivências”, disse.
Dona Raimunda, moradora do território Santa Rosa, avaliou a atividade como uma experiência única e de conhecimento. “Nós viemos aqui hoje para termos mais uma noção do nosso território, para termos uma integração e estou feliz de poder participar desse momento com meus colegas e vizinhos”, disse.
Ao final da atividade, os territórios puderam apontar as datas para a mobilização local e assim construir agendas comuns com o MIQCB e a AMTCOB para a processo de reconhecimento do território e também da comunidade como parte de um território tradicional.







O nome da companheira Raimunda Gomes da Silva, conhecida como Raimunda Quebradeira de Coco, foi escolhido para designar a Clínica de Direitos Humanos da Universidade Federal do Tocantins (UFT). Professores, alunos, técnicos administrativos e instituições ligadas ao Curso de Direito votaram para a escolha do nome.
Fundadora do Movimento Interestadual das Mulheres Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), Raimunda é uma referência histórica também para a aplicação e defesa dos Direitos Humanos no Bico do Papagaio e no mundo, tendo sido indicada ao Nobel da Paz em 2005.
Liderança-tronco do Movimento, dona Raimunda já foi homenageada em outras ocasiões pela Universidade ao receber o título de Doutora Honoris Causa. Também recebeu o Diploma Mulher-Cidadã Guilhermina Ribeira da Silva (Assembleia Legislativa do Tocantins) e o Diploma Bertha Lutz (Senado Federal) destinado às mulheres que contribuíram com a defesa dos direitos da mulher e questões de gênero no Brasil.
Uma mulher rural que deixou grande saudade para todas as companheiras do MIQCB, mais ainda para seus filhos, como Maria Helena Gomes dos Santos Amorim, que relatou que essa seleção demonstra que a memória do trabalho de Dona Raimunda continua viva. “Só tenho a agradecer a cada pessoa que votou no nome da minha mãe. Estou muito agradecida e feliz”
A coordenadora da Clínica, professora Gleidy Braga, disse que a homenagem às cinco mulheres indicadas aconteceu em março, momento necessário para relembrar a biografia das candidatas. “Mesmo após as suas existências físicas, essas mulheres têm contribuído com os seus legados, que continuam contribuindo para a construção dessa sociedade mais justa e fraterna”.
A eleição indicou cinco nomes, todos de grandes mulheres que contribuíram para o desenvolvimento do Estado do Tocantins: Camila Martins de Deus (Dona Camila), Guilhermina Ribeiro da Silva (Dona Miúda), Lucelina Gomes dos Santos (Dona Juscelina), Maria de Fátima Barros (Professora) e Raimunda Gomes da Silva (Dona Raimunda Quebradeira de Coco).
Gleidy ainda aponta que é importante registrar que todas as mulheres têm essa trajetória de defesa dos direitos humanos, mas a escolha por Dona Raimunda Quebradeira de Coco “traduz a longa trajetória dela em defesa das mulheres extrativistas, das comunidades ribeirinhas. Estamos muito felizes com o resultado”.


O Movimento Interestadual de Quebradeiras de Coco Babaçu Regional Tocantins participou do Encontro Intergeracional do Bico do Papagaio. O evento, promovido pelo GT das Juventudes do Bico em parceria com a Alternativas para a Pequena Agricultura no Tocantins (APA-TO), contou com o apoio do Centro de Assessoria e Apoio a Iniciativas Sociais (Cais).
Entre os dias 3 e 4 de maio, entidades sociais que defendem o extrativismo e a reforma agrária no norte do Tocantins reuniram-se para realizar a convergência de ideias, pautas, demandas e trabalhos entre jovens atuais e jovens a mais tempo. Pessoas de diferentes entidades e comunidades estiveram reunidas na Escola Família Agrícola de Vila Tocantins para construir alternativas de continuidade da luta e inclusão de novas demandas sociais.
A coordenadora Executiva do MIQCB Regional Tocantins, Ednalva Ribeiro, ressaltou que esse diálogo com a juventude é muito importante, principalmente porque as juventudes do MIQCB no Tocantins também integram o GT do Bico. “A gente quer inserir a juventude nas ações e nos trabalhos realizados pelos movimentos. Foi um encontro de saberes em que a juventude pode aprender com os mais experientes e nós aprendemos com a juventude sobre como é ser jovem hoje”.

Os jovens atuais, de 15 a 32 anos, defendem a inclusão de novas problemáticas sociais para somar à luta. Os jovens a mais tempo, por outro lado, consolidou o compromisso de trabalhar essa inclusão sem tirar o foco da luta pela terra e a regularização fundiária. A juventude de outrora aprendeu fazendo, criaram os sindicatos, movimentos e associações por meio de muito trabalho em adversidades ímpares. Aí está, como exemplo, a luta e assassinato de Padre Josimo. São pessoas que viveram processos lentos de busca por direitos.
Atualmente, os desafios são outros, o que não significa que sejam menores. O racismo, a LGBTfobia e a desigualdade de gênero são temáticas que incomodam e mobilizam a juventude atual. Tudo isso ao mesmo tempo para lidar com o cenário tecnológico fugaz a todo instante.
Jorge Luís Roberto Lima, que faz parte do GT das Juventudes do Bico desde 2018, conta que o diálogo foi importante para a organização da juventude. “Momentos como esse nos dão garantias de inserção da juventude no processo de luta por direitos, muito no intuito de rejuvenescer os movimentos para que as novas gerações consigam dar continuidade nas lutas”.
Os maiores desafios ainda são os acessos às cidades, a geração de renda e a permanência da juventude no campo. É o que diz a pesquisa realizada pelo GT das Juventudes do Bico em parceria com a APA-TO com patrocínio da Misereor. Segundo o levantamento, 70% dos jovens rurais querem permanecer no campo, mas não conseguem por falta de renda. E a maioria quer continuar a estudar, mas precisam trabalhar para garantir sua existência desde muito cedo.

Camila Holanda, que também faz parte do GT das Juventudes e é assessora da APA-TO, ainda lembrou que “mesmo querendo trabalhar, mesmo saindo para as cidades em busca de trabalho, os jovens encontram muitas barreiras por conta do preconceito, por terem vindo do campo”.
O trabalho da APA-TO com a Juventude do Bico começou ainda em 2014, como conta a diretora Executiva Selma Yuki Ishii. “Trabalhando com eles, percebemos que eles queriam começar a ocupar os espaços dentro das suas comunidades para refletir sobre seu papel junto aos movimentos”. Desde então, o trabalho de formação construiu uma proposta metodológica para a realização de encontros com as lideranças dos movimentos.
“Nós queremos continuar e o próximo passo é realizar uma avaliação geral. Mas já estamos muito felizes porque a juventude já coordena os eventos, se desafiam para isso. Eles perderam a timidez e conseguem ser interlocutores da própria demanda. No início, a juventude se voltava à APA-TO, hoje o GT se tornou ator representativo e atuante da própria juventude”, pontuou Selma.
A APA-TO segue com o papel de provocar os movimentos sociais a discutir as pautas apresentadas pela juventude em busca de inseri-los de forma orgânica nas entidades de representação. O encontro geracional é um símbolo dessa provocação que pretende avançar no processo de renovação das frentes de luta dos trabalhadores rurais e extrativistas.
Por isso, esse encontro promovido pelo GT das Juventudes do Bico em parceria com a APA-TO é tão necessário. Construir essa convergência contou com a ajuda do sociólogo Adriano Martins, coordenador de Programas do Cais. O professor intermediou toda a discussão e trouxe pontos de conexão entre as gerações.

“O desafio da participação e do protagonismo das juventudes em lutas sociais é um desafio da ordem do dia, ele é fundamental. Talvez essa seja uma das tarefas mais estratégicas para as lutas sociais atualmente. Mesmo que não seja um desafio simples, no sentido de que os jovens chegam em espaços já constituídos ao passo que eles já possuem as próprias demandas”, explicou Adriano.
As juventudes já têm experiência de luta, elas já têm contatos com situações de opressão e injustiça, e para elas só faz sentido entrar para as entidades representativas se for para enfrentar essas situações de discriminação e de injustiça. Então, as juventudes trazem temas para os movimentos sociais tradicionais que nem sempre fazem parte da pauta dessas entidades.
O que os jovens querem é que as organizações tradicionais se modernizem e passem a enxergar que as novas demandas sociais como balizadoras para a aproximação de novos membros que podem contribuir com a luta. O sociólogo ainda aponta que “essa aproximação gera choques culturais porque é formada por pessoas reais. Os preconceitos vivenciados hoje, quando tratados de maneira convergente, podem ser muito benéficos para ampliar a atuação dessas organizações”.
A questão é que uma demanda não anula a outra. O fato de trabalhar o racismo, por exemplo, não invalida a luta pela reforma agrária, mas traz compreensão de que o primeiro explica a necessidade do segundo. “Essa visão ampliada dos processos sociais apresenta grande potencial de ganhos múltiplos com a aproximação dessas diferentes gerações”. Mas Adriano defende que é preciso abertura para lidar com pensamentos, práticas e sugestões diferentes, o que motiva a luta social são as experiências de opressão que cada pessoa viveu. “Se existe desejo de mudança, de lutar contra injustiça, se amplia a luta ao longo do tempo”.
Todas essas vozes ecoam para uma única vontade: viver no campo com dignidade, com a garantia da própria terra e a reforma agrária para todas e todos. A construção foi linda de se ver e viver.

Cuidado
Durante todo o evento aconteceram dinâmicas laborais e místicas. À medida em que a pauta avançava, as manifestações se faziam necessárias e então compartilhadas. Música, dança e poesia embalaram os acordos entre a nova geração e os jovens a mais tempo.
Porém, a dinâmica que mais envolveu os participantes foi a do anjo. No primeiro dia de evento, ainda no início, cada participante foi convidado a retirar o nome de alguém de um envelope pequeno. O nome retirado seria protegido por quem o tirou até o final do evento.
A ideia era fazer com que as pessoas cuidassem umas das outras e se aproximassem entre si. Perceber o outro precisa de energia e intenção, e foi isso que aconteceu. Entre as refeições, durante as discussões e até na hora de se preparar para dormir, dava para notar as pessoas preocupadas em contribuir com as outras.
O detalhe é que os anjos não poderiam revelar seus protegidos até o final do evento. Aqueles que quisessem poderiam oferecer um presente como lembrança. Muitos jovens artesãos produziram artesanatos excepcionais, líderes por outro lado compartilharam camisetas, bonés e outros itens de luta.
Território da Cidadania
Desativado após o impedimento da Dilma Rousseff à presidência, membros dos movimentos sociais do Bico têm se articulado em busca de reativar esse grupo. A escola onde aconteceu o Encontro Intergeracional é um exemplo dos resultados obtidos por meio dessa organização.

A formação do Território era composta pelo poder público municipal dos 25 municípios do Bico do Papagaio e a sociedade civil organizada, por meio de representantes de entidades de representação de classe ou de luta social.
O MIQCB fez parte do planejamento da EFA Vila Tocantins e esteve presente nas discussões até sua inauguração. A escola é uma referência na região, as crianças ficam na instituição durante toda a semana, em dormitórios próprios. As três refeições do dia são produzidas, em sua maioria, com ingredientes provenientes da agricultura familiar local. O local é amplo e tem acesso direto à mata que circunda as hortas e jardim.
Patrícia Elite, moradora da Comunidade Olha D’Água contou que a EFA era um sonho. “Eu participei das discussões para implementação dessa escola. Meu sonho era ela ser inaugurada para eu vir estudar aqui. Mas aí, antes de inaugurar eu fiquei grávida e não pude vir. Minha felicidade é que a minha filha já vai começar a estudar, ela vai estudar aqui, vai estudar no lugar que eu ajudei a levantar”.
O retorno da atuação desse grupo é importante para as comunidades rurais do Bico e tem potencial para melhorar a vida das famílias extrativistas, aquelas que preservam e protegem a mata nativa e conserva o meio ambiente, benefício para todos e todas.
Participaram do encontro as entidades: Alternativas para a Pequena Agricultura no Tocantins (APA-TO), Associação Regional das Mulheres Trabalhadoras Rurais do Bico do Papagaio (ASMUBIP), Centro de Assessoria e Apoio a Iniciativas Sociais (Cais), Comissão Pastoral da Terra (CPT), Conselho Nacional das PopulaçõesExtrativistas (CNS), Movimento Interestadual de Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), Movimento Sem Terra (MST), Rede Bico Agroecológico e Sindicatos dos Trabalhadores Rurais da região.

O Movimento Interestadual de Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB) Regional Imperatriz e a Cooperativa Interestadual de Mulheres Quebradeiras de Coco (CIMQCB) realizaram uma atividade conjunta na Comunidade Pifeiros com o Grupo Pindova – Filhos da Mãe Palmeira. Entre os dias 17, 18 e 19, o grupo de jovens local participou da 2ª Oficina de Artesanato de 2024, ministrada pela artesã Rosalva Gomes.
Acélio Santos e Rosenete Gomes participaram de todas as fases do curso. Como são jovens adultos assumiram maiores responsabilidades, principalmente sobre equipamentos perfurocortantes. Adolescentes e crianças ficaram com os processos mais seguros e puderam assistir às atividades com o maquinário para aprender.
Rosenete avaliou o aprendizado como de grande valor. “Nossa vida vai melhorar, vamos poder fabricar e vender as biojoias além dos outros trabalhos que já fazemos, como a quebra do coco para a produção do azeite. É uma renda a mais”. Acélio, que nasceu e viveu toda sua vida em Pifeiros, vê a vida melhorar com a aproximação da CIMQCB. “A oportunidade que estamos recebendo é preciosa. Nós queremos contribuir com a cooperativa, mas queremos mais ainda conservar nosso modo de viver”.
A coordenadora de base da Regional Imperatriz do MIQCB Edileuza Oliveira dos Santos Almeida esteve durante toda a realização da Oficina e acompanhou cada passo da produção das biojoias dos Pindovinhas de Pifeiros. “Nem só de óleo se vive a quebradeira. A gente faz de tudo com o coco. Não podemos desperdiçar nada do nosso querido babaçu, as biojoias são a prova disso”.
Da coleta do babaçu à exposição das peças fabricadas, os alunos participaram de cada processo com atenção. O primeiro dia foi dedicado à coleta do coco na mata; à retirada da fibra do olho do buriti para a confecção dos cordões com fibra natural; e à serragem do coco para seleção das primeiras peças.
O segundo dia foi reservado aos trabalhos de acabamento e finalização das biojoias, quando os cocos se tornam colares, pulseiras, brincos e chaveiros. Outras peças podem ser produzidas, como apontou Rosalva. “Vocês aprenderam a fazer a biojoia, nos próximos encontros vamos evoluir para artigos de decoração e peças funcionais como relógios de parede”.
O último dia esteve reservado à Exposição das Biojoias, mas também foi momento de compartilhar apresentações e memórias. A Secretária da Juventude do MIQCB, Maria José Silva, que também é coordenadora executiva da Regional Imperatriz, trouxe novas perspectivas do trabalho de inclusão dos jovens no Movimento com a chegada da nova assessora Carla Pinheiro.
Maria José reforçou que a inclusão do eixo Juventudes no Planejamento Estratégico do MIQCB representa o interesse da entidade em investir no futuro e ouvir as novas ideias e práticas que nascem dentro das comunidades. “No meu ponto de vista, assim como a CIMQCB tem buscado evoluir, a articulação dos jovens aponta para a conquista do protagonismo de suas histórias”. Essa união resulta na fabricação de novos produtos com capacidade de conservar a sabedoria ancestral e a inovação da identidade cultural. “Vivemos um período de fortalecimento. Estamos apenas começando”.
Todas as coordenadoras da Regional Imperatriz estiveram presentes. Com exceção de Edileuza Oliveira dos Santos Almeida que esteve nos três dias de atividades, as demais coordenadoras de base Judite Teodoro dos Santos e Luseny dos Santos Oliveira compartilharam a experiêcia de assitir a apresentação e exposição das biojoias, além de apreciar o resgate histórico da comunidade.
A matriarca da comunidade, Marinez Bispo dos Santos, disse que se orgulha da juventude da sua comunidade engajada na vida do babaçu. “Os jovens são importantes para o nosso modo de viver”. Isso porque sua memória remonta ao tempo de fundação do MIQCB e de todas as conquistas alcançadas até aqui. “Não conquistamos nada sem luta. É isso que queremos ensinar a vocês que estão chegando”.
A diretora da CIMQCB, Raimunda Nonata Bezerra de Oliveira, afirmou apoio às próximas atividades e acrescentou que a cooperativa tem a intenção de ampliar o catálogo de produtos derivados do babaçu com a inclusão da juventude nas atividades laborais. Ao parabenizar os artesãos elogiou as peças, “são lindas! Que orgulho participar desse momento e desfrutar da maravilha que está acontecendo com o nosso babaçu”.
Dia 1 – A mãe Palmeira
Pela manhã, um grupo de jovens seguia Rosalva pela mata em busca do coco verde, ainda no cacho. Durante o caminho ela explicava sobre o formato do coco e a importância de retirar apenas o necessário da palmeira. “O coco verde rende peças claras porque sua fibra ainda não amadureceu. Só conseguimos esse tipo de coco que ainda está no cacho, ligado à palmeira. O objetivo desta retirada está dentro da perspectiva do uso consciente, sem agredir e sem prejudicar o tempo de gestação da palmeira”.
Quando o artesanato requer um tipo específico de coco, com a pigmentação mais clara, precisa ser retirado antes de cair. A coleta desse fruto verde não pode ser de forma predatória, mas extrativista. “Nós fazemos uso respeitoso da palmeira, a produção do artesanato deve ser consciente. Por isso que a Oficina precisa acontecer em etapas diferentes, no primeiro momento busco entender qual a relação que a comunidade tem com a preservação das palmeiras. Só depois entro na mata para ensinar como coletar o fruto necessário para as biojoias”, completou Rosalva.
“A palmeira é um ser vivo”. Pontuou a artesã ao ser questionada por que não se deve cortar todos os cachos de uma só vez. “Se tu corta o dedo e precisa dar pontos para recuperar do machucado, vais precisar de um tempo para curar. Do mesmo jeito é a palmeira. Se tirar todos os cachos não estamos fazendo o uso sustentável, isso prejudica até mesmo a polinização. Ela deixará de produzir como produzia antes”.
Na mata, mais a frente, crianças e adolescentes de Pifeiros coletavam cocos do chão. Mais uma vez, Rosalva orientou: “Quanto mais maduro o coco, mais escura é a sua casca. A peça que será produzida a partir dele terá uma coloração de castanho claro a castanho escuro”. Ela segurou dois cocos nas mãos e perguntou aos alunos se alguém sabia a diferença entre eles, a que Ana Paula Lima de Oliveira responde: “essa é nascida” – apontando para o coco com brotos de raízes.
O coco com nascida já brotou por dentro, a raíz encontra caminho de dentro para fora em busca da terra. Esse fruto maturado tem a casca mais escura, quase negra. Depois de encerada e pronta para usar, a peça terá cor profunda, a obsidiana vegetal.
“O principal uso do coco com nascida é comer. Quando sai essa raizinha para fora, é porque as amêndoas que tem dentro daquele coco já estão sentindo a terra. E ela já começa a sair para se fixar no chão e a partir daí virar uma pindovinha. Aquela amêndoa é uma palmeira, nascendo”, explicou Rosalva.
A artesã compartilhou suas memórias de infância com seus alunos. Filha, sobrinha, neta e bisneta de quebradeiras de coco, quando se juntavam para quebrar babaçu as nascidas já tinham destino: a cuia de farinha que alimentaria a pequena Rosalva. “Ela é docinha e é altamente nutritiva, com fome a gente não fica”.
Com os sacos abarrotados de babaçu, a caminhada de volta nos leva à casa de Ana Paula. Onde os cocos passam pela primeira triagem. São separados por verdes, maduros e nascidas. Algumas amostras são abertas para demonstrar suas características internas. O verde tem a castanha mole, ainda em desenvolvimento. O maduro tem a castanha bem dura e visualmente seca, porém, ao manipular, o cheiro e a textura do óleo natural sobressai. Já a nascida possui amêndoas germinadas de sabor adocicado, o preferido das crianças.
Dona Edileuza, atenta aos detalhes para contribuir com a Oficina, demonstrou como é a nascida por dentro da castanha depois de quebrar o coco. “Aqui dentro tem o baguinho, ele é gostoso, docinho, isso aqui eu já comi muito. É uma delícia, para quem não experimentou ainda, é muito bom experimentar, que é muito gostoso”.
Entre um coco e outro, eram encontrados os gongos. Essas larvas vivem dentro do coco e se alimentam das amêndoas para se desenvolverem. Os besouros, popularmente conhecidos como bicho do coco, colocam seus ovos na superfície dos frutos. Dez dias depois, a larva eclode e penetra o babaçu, comem a castanha para se alimentar ao passo que desocupa o casulo vegetal para sua própria proteção, até se tornar um besouro e sair pela casca do coco.
Como se alimenta apenas da castanha do babaçu, o gongo é fonte riquíssima de proteína, além de carregar toda a oleosidade proveniente da castanha de babaçu. Ele pode ser consumido in natura, mas também é principal ingrediente na produção de receitas que não levam óleo, já que possuem carga oleosa suficiente para a produção de variados pratos.
De volta ao artesanato, a artesã e seus alunos se reuniram debaixo de um limoeiro para a habilidosa arte de retirada da fibra do olho de buriti para a confecção dos cordões naturais das biojoias. Rosalva demonstrou que a lâmina da folha de buriti quando ainda está nascendo produz uma fibra fina e resistente que pode ser removida com o auxílio de uma agulha. A fibra, translúcida de tão fina, deve ser deixada ao sol para secar. Só então é trançada para se transformar em um cordão. Posteriormente, na montagem da peça, o cordão é embebido com a cera de carnaúba para oferecer ainda mais resistência e brilho.
No final da manhã, o grupo seguiu rumo à Casa do Artesanato com dois sacos cheios de matéria-prima. Ao lado da forrageira, um espaço com ferramentas básicas como morsa, ceguetas, esmerilhadeira, lixadeiras e outros materiais de artesanato estavam montados para dar início às produções das biojoias. Tudo preparado para a continuidade da oficina após o almoço.
Serrar o coco do babaçu não é uma tarefa fácil nem tampouco rápida. Com a morsa, o coco era preso de forma que a cegueta pudesse correr livremente. Ainda assim, para tirar a primeira moeda de babaçu, Acélio Santos escorria em suor nos quinze minutos ininterruptos de força nos braços.
O coco possui quatro camadas: na camada exterior podemos encontrar o epicarpo, uma casca fina que protege todo o fruto, ao removê-la consegue-se observar o mesocarpo, camada da qual é feita a farinha de babaçu; o endocarpo é a parte mais dura, a qual guarda a amêndoa, que é a última camada. Antes de levar o coco à serra é necessário remover as duas primeiras camadas, assim se preserva a vida útil da ferramenta que demora mais para ‘cegar seus dentes’.
Enquanto Acélio cortava as peças manualmente, Rosenete aprendia como trançar e encerar os cordões com a cera de carnaúba. Logo, o fim do dia se aproximava e o sol descia por detrás do babaçual que cerca a comunidade. As despedidas encerraram o primeiro dia com a limpeza do local e o compromisso para o encontro da manhã seguinte.
Dia 2 – Biojoia tomando forma
Ainda era cedo e Rosalva já estava de pé. Toda a comunidade já estava em atividade. Enquanto alguns tiravam o leite da vaca, outros trabalhavam na lavoura de maracujá. Da porta da casa de Dona Nalva dava pra ver que o galinheiro já estava em festa, as aves já estavam alimentadas. À caminho da Casa do Artesanato, outros lares já apresentavam movimento, de algumas até dava até para sentir o cheiro do azeite de babaçu sendo preparado.
A vida em Pifeiros começa antes de amanhecer, as casas não têm muros e nem precisam. A comunidade é uma grande família, as crianças andam de bicicleta livremente, brincam juntas em lugares diferentes. As mulheres estão na cozinha desde muito cedo para garantir que o almoço fique pronto a tempo. Tanto para alimentar seus filhos, como preparar a boia dos homens que estão na lida. O ritmo tem trilha sonora de passarinhos, farfalhar das palmeiras ao vento e água corrente. Vez ou outra se escuta o latido de um dos cachorros caramelos, típicos brasileirinhos, que preferem dormir à sombra.
Já na Casa do Artesanato, as atividades prometiam um público maior. A escola não abriria pela manhã, isso significava que mais crianças e adolescentes teriam mais tempo para participarem. À medida em que chegavam recebiam uma tarefa, sempre sob o olhar atento da artesã que orientava sobre as formas mais rápidas e confortáveis de se fazer.
A força tarefa rendeu e as peças começaram a ganhar brilho. Da retirada da fibra do olho de buriti ao polimento do babaçu se via uma pessoa para cada tarefa. O segundo dia foi dedicado, em sua maior parte, a lixar e polir as peças. A esmerilhadeira fazia o grosso do trabalho, duas lixas grossas deixavam a peça cada vez mais parecida com uma biojoia, o polimento finalizava o trabalho para a cera de carnaúba cobrir e dar brilho. Uma peça passava de mão em mão até sua finalização.
À tarde, as crianças e adolescentes voltaram à rotina escolar e apenas os jovens adultos continuaram na tarefa artesanal. Aos poucos o coco passou de fruto para brincos, colares, chaveiros e pulseiras. A oficina varou a noite para concluir a missão de apresentar as biojoias em exposição no dia seguinte. Todos estavam ansiosos pela chegada das coordenadoras do MIQCB, da direção da CIMQCB e da Secretaria da Juventude para se reunir com a comunidade.
Tarde da noite, o sono chegava, mas a empolgação era tanta que Rosalva continuava a demonstrar diferentes modelos de trama para os cordões naturais e sintéticos sob as lanternas dos celulares. Cada trama com um nó diferente, nas mãos habilidosas da professora parecia fácil, mas a cada tentativa a certeza de que somente a prática poderia aprimorar a capacidade de alcançar o ritmo e a qualidade de seu trabalho.
Pouco tempo depois, Rosente e Acélio fizeram uma trama inteira sozinhos e ficaram felizes com o resultado. “Quando pega o jeito vai ficando mais fácil”, exclamou a jovem surpresa. “Eu quero aprender a fazer o cordão inteiro agora”, pediu ele. Ao passo que Rosalva já se prontificou: “Então pega lá a linha sintética que ela é longa o suficiente para uma trama completa”. De nó em nó, a linha se transformou em cordão.
O dia já era breu quando as tarefas estavam finalizadas. A organização e a limpeza da sala tornou-se a ordem do momento e cada integrante guardou, limpou e planejou a sua parte para a manhã seguinte.
Dia 3 – Resgate e Exposição
O dia começou em festa, o Grupo Pindova estava preparando o salão da igreja para receber o MIQCB, CIMQCB e a comunidade para apresentar as biojoias feitas durante os dois dias de oficina. Na oportunidade, os jovens também prepararam uma apresentação para demonstrar o processo de produção e demonstrar a condição do babaçu após cada processo.
A matriarca da comunidade, Dona Inês, chegou bem cedo. Ela, que é liderança tronco do MIQCB, também esteve envolvida na organização social de Pifeiros desde o início, ainda na década de 90. Ao recepcionar as companheiras que vieram de Imperatriz, muitas delas de outras comunidades, declarou sua alegria.
“Nós ficamos felizes com as conquistas de cada luta que engajamos. Nós sonhamos com essa Casa de Artesanato e conquistamos, sonhamos em incluir a juventude e conquistamos, sonhamos com as ferramentas para que os jovens pudessem trabalhar e temos conquistado aos poucos. As joias que vemos hoje são frutos de muitos anos de trabalho”, relembrou a matriarca.
Entre sorrisos e abraços, as mulheres e a comunidade se acomodaram em um grande círculo. A Secretária da Juventude do MIQCB, Maria José Silva, apresentou a assessora de Juventude, Carla Pinheiro, recém contratada do Movimento para desenvolver as atividades das Juventudes nos quatro estados de atuação: Maranhão, Pará, Piauí e Tocantins.
Carla disse que está feliz em poder contribuir com esse novo eixo de atuação e que a primeira ação será um diagnóstico participativo, oportunidade dedicada a ouvir as juventudes e identificar as ações apropriadas para atuar em cada localidade. “A ideia é ouvir e observar, nós queremos construir um planejamento conciso com a realidade de cada lugar”.
Na sequência, dona Inês dispôs da palavra para relembrar as circunstâncias da criação do Movimento ainda na década de 90. “Foi muita luta, foi muito trabalho. Agora é a vez da juventude continuar com tudo que construímos até aqui. Não será fácil, mas nós nunca conseguimos nada sem luta mesmo”. Ela recebeu a juventude em seus braços para celebrar este pacto geracional.
Acélio Santos, agora artesão de Pifeiros, era uma criança quando o Grupo Pindova começou suas atividades. Ele lembrou que era criança quando viu a geração anterior sonhar com a Casa de Artesanato e revelou sua gratidão pela continuidade do projeto na comunidade. “Eu sou a prova viva desse sonho e pretendo levar esse sentimento comigo na produção das próximas peças e na responsabilidade de desenvolver novos artesãos na minha comunidade”.
A Casa de Artesanato em Pifeiros é uma conquista importante. A primeira geração do Grupo Pindova começou o trabalho artesanal e a luta por um espaço adequado para o desenvolvimento das atividades manuais de produtos derivados do babaçu. Wcélia Carvalho foi integrante dessa primeira geração e hoje atua como assessora técnica do MIQCB Regional Imperatriz. Ela reforça que, por mais que não esteja na quebra do coco atualmente, se considera quebradeira de coco, assim como sua mãe, avó e bisavó.
Wcélia conta que ainda na criação do Grupo Pindova – Filhos da Mãe Palmeira, em 2016, o artesanato já era uma proposta de desenvolvimento para as novas formas de produzir derivados do babaçu. “No início não entendíamos bem porque não fazia parte da nossa vivência. Nossa vida era quebrar o coco, tirar a amêndoa, fazer o azeite e fazer o carvão”. Aos poucos, o recém criado Grupo Pindova aceitou o desafio. Mais de 20 jovens na faixa etária entre 10 e 27 anos se organizaram.
O grupo foi criado com a divisão de faixa etária para trabalhar na produção de coletar, selecionar, cortar, modelar, lixar, polir e montar. Do pequeno ao maior, o grupo se fortalecia por meio do engajamento. “Essa conquista me traz um orgulho imenso, porque nossa luta de início foi forte. Nunca desistimos desse sonho. Lembro que para produzir o artesanato, antes a gente tinha que construir uma latada”, relembrou Wcélia.
A latada é uma cobertura de palha sobre estacas de madeira, como demonstrada na foto da oficina feita ainda com a primeira geração de jovens de pifeiros. Com as estacas fixadas ao chão, uma fileira de outras estacas eram postas na parte superior para que as palhas fossem colocadas como cobertura. Na sombra projetada, os jovens de Pifeiros se reuniam para trabalhar o artesanato. Wcélia conta que “sempre que o sol secava as palhas, ou a chuva molhava e apodrecia a estrutura, a latada precisava ser reconstruída”.
Por isso a Casa é uma conquista importante. Ter onde guardar as ferramentas e materiais, além de poder trabalhar protegido do sol e da chuva, “é uma conquista imensa para a comunidade”. Wcélia ainda reafirma que o espaço também contribui para o fortalecimento do grupo de jovens e à cultura local.
“Nós demos o nome de Filhos da Mãe Palmeira à Casa de Artesanato porque representa nosso orgulho e gratidão. Ela é o símbolo de que vale a pena lutar, trabalhar e conquistar. Daqui para frente desejo que as atividades continuem firmes e fortes para que a gente possa perseverar”, estimou Wcélia.
A CIMQCB tem parte importante nessa história. O Projeto de criação do Grupo Pindova nasceu de uma ação conjunta entre cooperativa e movimento. O slogan da campanha diz muito sobre a intenção: gente nova na vida do babaçual. O Grupo abrange todas as comunidades ligadas ao MIQCB, mas pretende especializar o trabalho da juventude nas produções da agricultura familiar e extrativista. A juventude de cada comunidade escolheu seu nome e sua atuação.
São quatro os eixos possíveis para a atuação da juventude: artesanato, educação contextualizada, agroquintais-agrofloresta e quebra do coco. A juventude de Pifeiros, por exemplo, escolheu atuar em todos os eixos. Desta vez, o foco foi o artesanato, mas os planos da CIMQCB é desenvolver as demais atividades com a parceria de agentes externos e internos, como no caso do Centro de Formação das Mulheres Quebradeiras de Coco Babaçu que formou a primeira turma recentemente.
Raimunda Nonata Bezerra de Oliveira, diretora da CIMQCB, explica que incentivar as juventudes é muito importante porque significa a continuidade da luta travada por elas há décadas, principalmente em relação à produção do babaçu. “Nós não tivemos essa oportunidade no nosso tempo de juventude. São ações como essa que impedem que a nossa cultura se acabe”.
A CIMQCB é uma filha do MIQCB. O Movimento começou por causa da necessidade que as mulheres sentiam em se organizar para proteger a si e ao babaçual, com o tempo outras demandas surgiram e outros desafios foram postos. A Cooperativa, no entanto, foi criada para trabalhar a comercialização e a produção dos derivados do babaçu. A CIMQCB iniciou suas atividades em 2009, desde então as quebradeiras de coco podem se associar e participar da estruturação das atividades nas regionais.
Hoje, a CIMQCB está em expansão e já atua nos quatro estados onde estão as quebradeiras de coco: Maranhão, Pará, Piauí e Tocantins. As mulheres cooperadas têm destino certo para a venda de seus produtos e podem utilizar a estrutura que a cooperativa disponibiliza, além de não ter vínculo de exclusividade. Ou seja, elas podem continuar a vender de forma independente também.
Segundo Raimunda, os benefícios são vários em contrapartida às dificuldades que ainda existem. “Já tem quase dez anos que sou sócia e eu acho muito bom, tenho visto melhorias importantes”. É uma cooperativa relativamente nova, mas as vantagens já se sobressaem. “Todo fim do ano recebemos a cota-parte, um dinheiro importante para nós. Mas a principal vantagem é que ela é nossa, nós é que a mantemos. Vendemos o que produzimos hoje para financiar o futuro do babaçu no mercado”.
O encerramento da atividade ficou por conta da apresentação do coco em processos diferentes. Os jovens demonstraram a situação em que o babaçu ficava a cada parte do processo de fabricação das biojoias. O público pôde sentir a textura do fruto mudar para a maciez da biojoia. Por fim, a loja estava aberta e todas as pessoas puderam comprar diretamente com os novos artesãos.
As peças continuam à venda por meio da CIMQCB. Os artesãos podem atender os pedidos diretamente, assim como encomendas específicas. O contato da artesã Rosalva Gomes, (99) 98809-2930, e do jovem artesão Acélio Santos, (99) 98410-2965, estão disponíveis pelo aplicativo de conversas WhatsApp.
Confira as peças que foram criadas nos três dias da Oficina:


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