
Criado pelas próprias quebradeiras de coco babaçu, Fundo já movimentou mais de R$ 10 milhões e apoiou cerca de 120 projetos no Maranhão, Pará, Piauí e Tocantins
Neste sábado, 10 de outubro, o Fundo Babaçu completa 14 anos de uma história construída pelas mãos das quebradeiras de coco babaçu. Criada em 2012 pelo Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), a iniciativa nasceu de uma escolha política e coletiva: fazer com que recursos destinados ao desenvolvimento sustentável, à proteção ambiental e à garantia de direitos chegassem diretamente às organizações e comunidades que vivem, trabalham e protegem os territórios de babaçuais.

Ao longo dessa trajetória, o Fundo se consolidou como uma estratégia de autonomia e fortalecimento das organizações de base. Já movimentou mais de R$ 10 milhões e apoiou cerca de 120 projetos, por meio de 12 editais, cartas-convite e projetos de demanda espontânea, alcançando organizações comunitárias e milhares de famílias no Maranhão, Pará, Piauí e Tocantins.
Mais do que financiar projetos, o Fundo Babaçu contribui para transformar ideias construídas dentro dos territórios em ações concretas de geração de renda, fortalecimento da organização comunitária, proteção dos babaçuais, defesa dos territórios tradicionais, valorização da cultura e dos conhecimentos das quebradeiras e ampliação da autonomia das mulheres.
Para a secretária executiva do Fundo Babaçu, Nilce Cardoso, essa forma de atuação é fundamental para fortalecer a autonomia das mulheres e das organizações comunitárias.
“O Fundo Babaçu nasceu das próprias quebradeiras de coco babaçu para atender às necessidades de seus territórios. Ao garantir acesso direto aos recursos e participação nas decisões, fortalecemos a autonomia das mulheres, suas organizações e sua capacidade de transformar a realidade das comunidades”, destaca Nilce Cardoso, secretária executiva do Fundo Babaçu.”, destaca.
Ao avaliar os resultados dos projetos apoiados pelo Fundo Babaçu, a coordenadora executiva do MIQCB na Regional Piauí, Marinalda Rodrigues, destaca os avanços na autonomia das mulheres e no fortalecimento dos territórios tradicionais.
“O Fundo Babaçu tem trazido muitos benefícios para as comunidades de quebradeiras de coco. Por meio dos projetos, muitas mulheres, grupos de produção e comunidades conquistaram mais autonomia e fortaleceram a compreensão de que preservar as palmeiras de babaçu não é apenas preservar a natureza, mas também preservar a vida.”, afirma Marinalda Rodrigues, coordenadora do MIQCB que acompanha o Fundo Babaçu.
Um exemplo é o projeto “Quebradeiras de Coco Babaçu de Santa Tereza na Defesa do Território”, executado na comunidade Santa Tereza, em Viana/MA, apoiado pelo Fundo Babaçu com R$ 33 mil, que fortaleceu a organização comunitária, a defesa dos babaçuais e a formação das quebradeiras e da juventude.
“O Fundo Babaçu fortaleceu nossa luta em defesa do território e contra o uso de agrotóxicos nos babaçuais. Com o apoio, concluímos nossa sede social, um espaço de organização e convivência comunitária. Também ganhamos visibilidade e construímos novas parcerias, fortalecendo nossa capacidade de continuar lutando pelos nossos direitos”, destaca Josiane Muniz Silva, uma das coordenadoras de projeto apoiado pelo Fundo Babaçu.
Uma ideia que nasceu da experiência das próprias mulheres
A história do Fundo começou antes mesmo de sua criação formal. Entre 2010 e 2011, o MIQCB desenvolveu uma experiência de Fundo Rotativo de Microcréditos, gerido pelas próprias quebradeiras para financiar pequenos projetos agroextrativistas.

A experiência foi também um exercício de gestão coletiva. Ao administrar recursos, analisar necessidades e tomar decisões sobre os investimentos, as mulheres fortaleceram capacidades para gerir seus próprios projetos e construir mecanismos de financiamento adequados às realidades das comunidades.
Foi desse aprendizado que nasceu, em 2012, o Fundo Babaçu.
Desde então, a iniciativa cresceu, ampliou parcerias e aperfeiçoou seus mecanismos de gestão e financiamento, preservando um princípio fundamental: as quebradeiras de coco não são apenas beneficiárias dos recursos. Elas participam das decisões sobre os caminhos do Fundo e sobre as prioridades dos territórios.
Recursos que chegam a quem protege os territórios
O Fundo Babaçu apoia iniciativas relacionadas a três grandes linhas estratégicas: conservação e uso sustentável da biodiversidade nos babaçuais; acesso e gestão dos territórios tradicionais; e fortalecimento das cadeias produtivas de base agroecológica.

Na prática, os projetos financiados alcançam diferentes dimensões da vida das comunidades. São ações de agricultura familiar e extrativismo agroecológico, geração de renda, segurança alimentar, fortalecimento de organizações comunitárias, proteção ambiental, valorização dos conhecimentos tradicionais, acesso aos babaçuais, regularização fundiária e defesa dos territórios.
O apoio é feito por meio de recursos não reembolsáveis, permitindo que associações, cooperativas, organizações comunitárias e, em determinadas modalidades, grupos informais desenvolvam iniciativas pensadas a partir de suas próprias necessidades.
Essa forma de financiamento também reconhece algo que as quebradeiras demonstram há gerações: conservar os babaçuais e garantir o bem viver das comunidades são processos inseparáveis.
Gestão participativa e transparência
A construção coletiva também está presente na governança. O Fundo Babaçu é gerido por um Comitê Gestor composto por representantes do MIQCB e de organizações parceiras, reunindo diferentes experiências ligadas às quebradeiras de coco, comunidades quilombolas, juventudes, agroecologia, trabalhadores e trabalhadoras rurais, organizações da sociedade civil e instituições acadêmicas.

A Secretaria Executiva é responsável pelo suporte político e operacional, pelo acompanhamento dos projetos e pela relação com as organizações apoiadas e parceiros.
O Fundo Babaçu aposta no protagonismo das novas gerações para dar continuidade à luta e às conquistas das quebradeiras de coco, como afirma Socorro Viana, representante da Associação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas do Maranhão (ACONERUQ) no Comitê Gestor do Fundo Babaçu.
“Participamos do Fundo Babaçu desde a sua criação, contribuindo com a avaliação de projetos que têm levado melhorias e qualidade de vida às comunidades do Maranhão, Pará, Piauí e Tocantins. São iniciativas que fortalecem as quebradeiras de coco e suas organizações. Agora, com editais voltados à juventude, buscamos incentivar a participação das novas gerações, para que assumam esses espaços e deem continuidade ao trabalho e às conquistas construídas ao longo desses anos.”, afirmou ela.
Além do repasse de recursos, o Fundo investe no fortalecimento das capacidades das organizações comunitárias. Oficinas, acompanhamento técnico e atividades de formação em planejamento, gestão de projetos, elaboração de relatórios e prestação de contas fazem parte desse processo.
Assim, cada projeto apoiado também pode representar uma oportunidade para que grupos e organizações ampliem sua experiência de gestão e estejam mais preparados para acessar outras fontes de financiamento.
Novas formas de chegar às comunidades
Nos últimos anos, o Fundo também ampliou suas formas de apoio. Em 2025, foi firmado o primeiro projeto na modalidade de demanda espontânea, criando uma alternativa para que necessidades surgidas diretamente nas comunidades possam ser apresentadas ao Fundo sem depender exclusivamente da abertura de editais.

Em 2026, a trajetória ganhou um novo capítulo com o lançamento dos 11º e 12º editais, durante o II Encontro do Fundo Babaçu, realizado em São Luís. As novas chamadas foram estruturadas para apoiar iniciativas lideradas por mulheres, juventudes e organizações comunitárias nos quatro estados de atuação do MIQCB.
As diferentes modalidades ajudam o Fundo a se aproximar ainda mais das dinâmicas dos territórios e reafirmam uma concepção construída ao longo desses 14 anos: comunidades tradicionais não devem ser apenas destinatárias de políticas e investimentos. Elas precisam participar das decisões sobre como os recursos são aplicados e quais prioridades devem ser enfrentadas.
Uma experiência que dialoga com a justiça climática
A experiência do Fundo Babaçu ganha ainda mais importância diante dos debates sobre financiamento climático e sobre a necessidade de fazer os recursos destinados à conservação chegarem diretamente aos povos e comunidades tradicionais.
O Fundo integra a Rede de Fundos Comunitários da Amazônia, articulação que reúne mecanismos de financiamento criados a partir dos próprios movimentos e comunidades. A Rede defende modelos capazes de garantir acesso direto, justo e transparente aos recursos por quem vive nos territórios e atua cotidianamente na conservação das florestas.
Ao longo de sua trajetória, o Fundo Babaçu contou com parceiros que reconheceram e fortaleceram essa experiência, entre eles Fundação Ford, Fundo Amazônia/BNDES e Tenure Facility.
Um dos marcos dessa trajetória é o projeto Floresta de Babaçu em Pé, apoiado pelo Fundo Amazônia/BNDES, que associa o financiamento de projetos socioambientais à formação, ao suporte técnico e ao fortalecimento do associativismo das comunidades agroextrativistas no Maranhão, Pará e Tocantins.
Aos 14 anos, a trajetória do Fundo Babaçu também ganha um importante reconhecimento institucional. Em 2026, a Recomendação nº 21/2026 do Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH) citou expressamente o Fundo Babaçu ao tratar da necessidade de ampliar o acesso das quebradeiras de coco babaçu aos recursos destinados ao financiamento climático.
O documento reconhece o Fundo como um mecanismo financeiro autônomo e comunitário, com governança própria e capilaridade territorial para apoiar diretamente projetos de conservação ambiental, fortalecimento político e autonomia socioeconômica das mulheres quebradeiras.

Mais do que reconhecer os resultados alcançados, a Recomendação aponta para a necessidade de salvaguardar e fortalecer mecanismos financeiros autônomos e comunitários, como o Fundo Babaçu, capazes de fazer os recursos chegarem diretamente às organizações e comunidades que atuam na proteção dos territórios.
O reconhecimento do CNDH reforça um princípio que acompanha o Fundo desde sua criação: quem vive nos territórios, protege os babaçuais e enfrenta cotidianamente os efeitos das mudanças climáticas precisa também participar das decisões sobre os recursos destinados à conservação e à justiça climática.
Nesse sentido, a experiência construída pelas quebradeiras ao longo de 14 anos ultrapassa os territórios de atuação do MIQCB e se apresenta também como uma referência para o debate nacional sobre financiamento climático direto, justiça socioambiental e autonomia dos povos e comunidades tradicionais.
A recomendação se soma a outros avanços institucionais conquistados em 2026. O CNDH também propõe medidas relacionadas à titulação coletiva dos territórios, à proteção dos babaçuais contra o desmatamento e os agrotóxicos, à construção de uma Lei do Babaçu Livre em âmbito federal e à ampliação do acesso das quebradeiras ao financiamento climático. O Conselho reconhece ainda o extrativismo desenvolvido por essas mulheres como uma tecnologia social de conservação, fundamental para a manutenção da floresta em pé e da sociobiodiversidade.
14 anos fazendo o recurso chegar aos territórios
Celebrar os 14 anos do Fundo Babaçu é também reconhecer a capacidade das quebradeiras de criar suas próprias respostas para desafios históricos.

De uma experiência de pequenos microcréditos geridos pelas mulheres nasceu um mecanismo que hoje movimenta milhões de reais, articula parceiros e apoia iniciativas em dezenas de comunidades. Mas sua essência permanece a mesma: fortalecer quem está no território.
Em um cenário marcado pelas mudanças climáticas, pelo desmatamento, pelas ameaças aos territórios tradicionais e pelas desigualdades no acesso aos recursos, a experiência demonstra que investir diretamente nas comunidades é também investir na floresta em pé, na autonomia das mulheres, na proteção da sociobiodiversidade e na continuidade dos modos de vida tradicionais.
Aos 14 anos, o Fundo Babaçu segue crescendo com as raízes fincadas no lugar onde nasceu: na organização coletiva das quebradeiras de coco babaçu.
Fundo Babaçu: há 14 anos, aqui tem quebradeiras de coco babaçu fortalecendo territórios, protegendo os babaçuais e transformando o presente.

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