Guardiãs das Florestas e dos Territórios Tradicionais: MIQCB celebra o encerramento da primeira turma do Curso de Formação em Governança e Direitos Territoriais
Foram seis meses de formação, mais de 400 horas de atividades, 56 formandos, dezenas de educadores, lideranças tradicionais e universidades parceiras reunidos em um mesmo propósito: fortalecer quem há gerações protege os babaçuais e os territórios tradicionais.
A emoção tomou conta da Casa da Justiça Universitária da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), em São Luís, durante o encerramento da primeira turma do Curso de Formação em Governança e Direitos Territoriais das Quebradeiras de Coco Babaçu, promovido pelo Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB).
Ao longo desta última quinta-feira, 25 de junho, apresentações de trabalhos, comunicações orais, exposição de banners e a cerimônia de colação de grau marcaram a conclusão de uma jornada de seis meses que certificou 56 lideranças dos estados do Maranhão, Pará, Piauí e Tocantins. Mais do que concluir uma formação, o encontro celebrou o fortalecimento de uma rede de mulheres, homens e jovens comprometidos com a defesa dos territórios, dos direitos coletivos, dos babaçuais e da continuidade dos modos de vida dos povos e comunidades tradicionais.
A programação começou ainda durante a tarde, quando educandas e educandos apresentaram os resultados das pesquisas desenvolvidas ao longo do curso. Divididos por regionais, os participantes compartilharam comunicações orais e banners que sistematizaram experiências construídas durante o Tempo-Comunidade, etapa em que cada liderança levou o aprendizado para seu território e desenvolveu atividades práticas junto às comunidades. Cartografias sociais, diagnósticos territoriais, estudos sobre conflitos fundiários, governança comunitária e estratégias de incidência política foram apresentados diante de uma banca formada por professores e professoras parceiras da formação.
A exposição permaneceu aberta à visitação durante toda a tarde, permitindo que familiares, convidados e parceiros conhecessem os resultados de um percurso formativo que fez da experiência das quebradeiras de coco babaçu e dos povos e comunidades tradicionais a principal fonte de produção do conhecimento. Mais do que uma atividade de conclusão, a mostra evidenciou que os territórios também produzem ciência, memória e estratégias capazes de fortalecer a luta coletiva.
Promovido pelo MIQCB, por meio do Centro de Formação e do Projeto Baqueli, o curso nasceu da necessidade de fortalecer mulheres quebradeiras de coco babaçu, juventudes e lideranças comunitárias para atuar na defesa dos direitos territoriais e da governança dos babaçuais. A iniciativa foi realizada em parceria com universidades e instituições de pesquisa, responsáveis pela certificação da formação.
Inspirado na Educação Popular e na Pedagogia da Alternância, o curso articulou momentos presenciais, chamados de Tempo-Escola, com atividades desenvolvidas diretamente nas comunidades durante o Tempo-Comunidade. Ao longo de quatro módulos, as educandas e os educandos aprofundaram conhecimentos sobre legislação agrária, cartografia social, comunicação, licenciamento ambiental, políticas públicas e instrumentos jurídicos voltados à defesa dos territórios, sempre relacionando teoria e prática.
A primeira turma reuniu 56 formandos das regionais Baixada Maranhense, Imperatriz, Mearim/Cocais, Pará, Piauí e Tocantins. Mulheres quebradeiras de coco babaçu, jovens lideranças, indígenas, quilombolas e representantes de outras comunidades tradicionais construíram, juntos, cartografias sociais, diagnósticos territoriais, recomendações políticas e estratégias de incidência que passam a fortalecer a atuação das comunidades e do próprio movimento.
Guardiãs das Florestas e dos Territórios Tradicionais
No fim da tarde, o auditório da Casa da Justiça Universitária recebeu familiares, parceiros e convidados para a cerimônia de colação de grau da turma Guardiãs das Florestas e dos Territórios Tradicionais. Ao som das Encantadeiras, as formandas e os formandos entraram representando suas regionais, em um momento marcado por aplausos, reencontros e emoção.
A solenidade reuniu a coordenação do MIQCB, assessorias técnicas, professores universitários, educadores populares e representantes das instituições parceiras, reafirmando o caráter coletivo da formação e o diálogo permanente entre o conhecimento acadêmico e os saberes ancestrais das quebradeiras de coco babaçu.
Em sua fala, a coordenadora geral do MIQCB, Maria Alaídes Alves, destacou que a primeira turma representa uma conquista construída pelo próprio movimento ao longo de décadas de organização.
“Este curso nasce da nossa caminhada, da nossa organização e da nossa resistência. Ele reafirma que defender os territórios também exige formação, conhecimento e unidade. Hoje celebramos mulheres, homens e jovens que voltam para suas comunidades ainda mais preparados para proteger os babaçuais, fortalecer suas organizações e garantir que nossos direitos continuem sendo respeitados.”
Maria Alaídes também ressaltou que o curso reconhece a potência dos saberes tradicionais produzidos pelas quebradeiras.
“As universidades foram parceiras fundamentais nessa caminhada, mas o conhecimento que sustenta este curso nasce nos babaçuais, nas comunidades e na experiência de quem luta todos os dias para manter nossos territórios vivos. As quebradeiras sempre foram educadoras dos seus povos.”
Ao apresentar a trajetória da formação, a coordenadora do Eixo Jurídico do MIQCB e coordenadora do curso, Renata Cordeiro, lembrou que a proposta nasceu das demandas construídas ao longo da história do movimento.
“O desafio era construir uma formação que dialogasse diretamente com a realidade das comunidades. Não queríamos apenas transmitir conteúdos, mas fortalecer capacidades, ampliar a incidência política e fazer com que cada participante retornasse ao seu território preparado para defender direitos e multiplicar esse conhecimento.”
Segundo Renata, um dos maiores resultados da experiência foi demonstrar que teoria e prática caminham juntas.
“O Tempo-Comunidade mostrou que o território também é uma sala de aula. Os trabalhos apresentados hoje revelam que as próprias quebradeiras produzem conhecimento, constroem soluções e fortalecem estratégias capazes de transformar a realidade de suas comunidades.”
Representando a turma Guardiãs das Florestas e dos Territórios Tradicionais, a jovem Ana Vitória Sá, da Regional Imperatriz (MA), levou ao público um discurso marcado pela gratidão e pelo compromisso com o futuro da luta das quebradeiras de coco babaçu.
“Hoje encerro este ciclo formativo com o coração cheio de gratidão e esperança. Foram quatro módulos de muito aprendizado, troca de experiências e fortalecimento da nossa luta coletiva.”
Em nome da turma, Ana Vitória lembrou que cada encontro reforçou a compreensão de que os territórios são espaços de vida, cultura, resistência e bem viver.
“Aprendemos que defender o babaçu é defender nossas comunidades, nossos saberes e as futuras gerações. Levo comigo não apenas os conhecimentos construídos durante o curso, mas também as histórias, os exemplos e a força das mulheres que há décadas mantêm viva essa luta.”
Ao encerrar sua fala, deixou uma mensagem que sintetizou o sentimento compartilhado pelos 56 formandos.
“O futuro da luta das quebradeiras de coco babaçu também passa pelas mãos da juventude. Seguiremos firmes, porque babaçu livre é território vivo e resistência.”
Um dos momentos mais simbólicos da cerimônia foi a homenagem às educadoras populares, às professoras, aos professores e às mestras dos babaçuais que contribuíram para a realização do curso. A programação reconheceu que a formação foi construída por muitas mãos, unindo conhecimentos acadêmicos e saberes ancestrais na construção de um projeto educativo comprometido com os povos e comunidades tradicionais.
A entrega dos certificados marcou o momento mais aguardado da noite. Um a um, os 56 formandos receberam sua certificação, simbolizando não apenas a conclusão de uma etapa de estudos, mas o fortalecimento de uma rede de lideranças preparadas para multiplicar conhecimentos e ampliar a defesa dos territórios tradicionais. Após o juramento coletivo, os aplausos, os abraços e as fotografias deram lugar à certeza de que aquela caminhada estava apenas começando.
Um novo começo
A primeira turma do Curso de Formação em Governança e Direitos Territoriais inaugura um novo capítulo na história do MIQCB. Mais do que formar 56 lideranças, o curso consolidou uma metodologia própria de formação política, baseada na educação popular, na valorização dos saberes tradicionais e na construção coletiva de soluções para os desafios enfrentados pelas comunidades.
O legado dessa primeira turma permanece nas cartografias produzidas, nas estratégias construídas para fortalecer a governança dos territórios, nas redes que se consolidaram entre Maranhão, Pará, Piauí e Tocantins e, principalmente, nas mulheres, homens e jovens que retornam às suas comunidades preparados para multiplicar conhecimentos, fortalecer organizações e seguir defendendo os babaçuais.
Inspiradas pelo pensamento do intelectual, mestre quilombola e defensor dos saberes tradicionais Nego Bispo, para quem a vida é feita de “começo, meio e começo”, as quebradeiras de coco babaçu encerraram essa etapa olhando para o futuro. A certificação não representou o fim de uma história, mas o início de uma nova caminhada para 56 lideranças que voltam aos seus territórios levando, na bagagem, os conhecimentos compartilhados durante a formação e a responsabilidade de seguir fortalecendo a luta em defesa dos babaçuais, dos direitos coletivos e do bem viver. Porque, para as quebradeiras de coco babaçu, cada conquista é também um novo ponto de partida.
MIQCB
MOVIMENTO INTERESTADUAL DAS QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU