16/06/2026 1:08 pm

II Encontro do Fundo Babaçu reúne quebradeiras de coco para debater justiça climática, autonomia e o futuro dos babaçuais

Reconhecimento dos saberes das quebradeiras como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro marca momento histórico celebrado às vésperas do encontro que reúne mulheres, juventudes e organizações comunitárias em São Luís (MA)

As quebradeiras de coco babaçu mantêm vivos conhecimentos ancestrais transmitidos entre gerações. Foto: Ingrid Barros

Muito antes de o financiamento climático ganhar espaço nos debates internacionais, mulheres quebradeiras de coco babaçu já buscavam respostas para uma questão fundamental: como fazer com que os recursos destinados à proteção dos territórios chegassem diretamente às comunidades que vivem, trabalham e cuidam dos babaçuais, como ferramenta de resistência e cuidado com a floresta?

A resposta começou a ser construída em 2012, quando o Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB) criou o Fundo Babaçu, uma iniciativa pioneira de financiamento comunitário gerida pelas próprias mulheres dos babaçuais.

Treze anos depois, essa experiência estará no centro do II Encontro do Fundo Babaçu, que acontece entre os dias 16 e 18 de junho, em São Luís (MA). O evento reunirá quebradeiras de coco, juventudes, organizações comunitárias e instituições parceiras para compartilhar experiências, avaliar resultados e discutir os desafios da justiça climática, da proteção dos territórios tradicionais e do fortalecimento de iniciativas construídas a partir dos saberes e prioridades das próprias comunidades.

O encontro acontece em um momento histórico para as quebradeiras de coco babaçu. Na última semana, durante a cerimônia do Dia Nacional do Meio Ambiente, realizada pelo Governo Federal, foi anunciado o reconhecimento dos saberes das Quebradeiras de Coco Babaçu como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro, além do lançamento do Plano Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais.

A conquista representa o reconhecimento de uma trajetória construída por gerações de mulheres que preservam conhecimentos ancestrais, protegem os babaçuais e contribuem para a manutenção da sociobiodiversidade e dos territórios tradicionais. O anúncio ocorre às vésperas do II Encontro do Fundo Babaçu e reforça a importância dos temas que estarão no centro dos debates durante os três dias de programação: justiça climática, proteção territorial, valorização dos saberes tradicionais, fortalecimento da autonomia comunitária e financiamento direto para as comunidades.

Mais do que uma celebração, o encontro será um espaço para refletir sobre os caminhos percorridos ao longo dessa trajetória e sobre os desafios que seguem mobilizando as comunidades dos babaçuais em um contexto de mudanças climáticas, pressões sobre os territórios e disputas em torno dos bens comuns.

Nas mãos das quebradeiras, o fruto do babaçu representa sustento, liberdade e a conexão com os territórios tradicionais. Foto: Ingrid Barros.

Criado em 2012, o Fundo Babaçu nasceu da iniciativa das próprias quebradeiras para apoiar projetos comunitários voltados ao fortalecimento das organizações de base, à valorização dos conhecimentos tradicionais, à proteção dos babaçuais, à participação das juventudes e ao fortalecimento dos modos de vida das comunidades tradicionais.

Ao longo desses 13 anos, o Fundo apoiou 100 projetos comunitários nos estados do Maranhão, Pará, Tocantins e Piauí, captando mais de R$ 8,5 milhões em recursos não reembolsáveis para apoio a iniciativas construídas a partir das demandas e prioridades dos próprios territórios.

As conquistas dessa trajetória podem ser observadas em diferentes frentes: fortalecimento de associações comunitárias, grupos produtivos de mulheres, cooperativas, iniciativas de formação, processos de defesa territorial e experiências voltadas à valorização da sociobiodiversidade. Em comum, essas ações contribuem para fortalecer a organização comunitária e ampliar a capacidade das comunidades de responder aos desafios enfrentados em seus territórios.

A programação do encontro foi construída a partir de temas que fazem parte do cotidiano das quebradeiras de coco babaçu. Conservação e uso sustentável da biodiversidade, fortalecimento das cadeias produtivas agroextrativistas, acesso e gestão dos territórios tradicionais, fundos comunitários, financiamento climático, educação popular e fortalecimento institucional estarão entre os assuntos debatidos ao longo dos três dias de atividades.

Além dos painéis e rodas de conversa, haverá exposição de produtos, materiais audiovisuais e experiências desenvolvidas pelos projetos apoiados pelo Fundo Babaçu, promovendo o intercâmbio entre comunidades e organizações dos diferentes estados onde a iniciativa atua.

A abertura será dedicada ao tema “13 anos do Fundo Babaçu para a biodiversidade: avanços e perspectivas”, propondo uma reflexão sobre os resultados alcançados desde a criação do Fundo e sobre os caminhos necessários para ampliar o fortalecimento das comunidades diante dos desafios atuais. O encontro também marcará o lançamento de novos editais voltados para mulheres e juventudes.

Para Nilce Cardoso, secretária executiva do Fundo Babaçu, o encontro representa um momento de avaliação da caminhada construída pelas quebradeiras de coco e definição dos próximos passos para o fortalecimento do Fundo nos territórios.

“Celebrar 13 anos do Fundo Babaçu é reconhecer uma trajetória construída coletivamente pelas quebradeiras de coco e por suas organizações. Ao mesmo tempo, esse encontro nos convida a pensar os desafios que estão colocados para os próximos anos. Em um contexto de crise climática e de pressão crescente sobre os territórios, fortalecer mecanismos comunitários de financiamento significa fortalecer quem protege a biodiversidade, produz alimentos, gera renda e mantém vivos os conhecimentos tradicionais, em especial nos babaçuais. É esse futuro que queremos construir e debater durante o encontro.”

O encontro acontece também em um momento de expansão das ações do Fundo. Em 2025, foi formalizada a primeira assinatura na modalidade de demanda espontânea, permitindo que grupos e organizações apresentem propostas elaboradas a partir das necessidades identificadas em seus próprios territórios. A iniciativa representa mais um passo na ampliação da autonomia comunitária e na capacidade do Fundo de responder diretamente às demandas apresentadas pelas comunidades.

Uma experiência construída pelas quebradeiras

Quando o Fundo Babaçu foi criado, a proposta era simples e, ao mesmo tempo, transformadora: colocar nas mãos das próprias quebradeiras de coco a decisão sobre como investir recursos para fortalecer seus territórios, suas organizações e seus modos de vida.

Treze anos depois, a iniciativa tornou-se uma referência em filantropia comunitária na Amazônia, demonstrando que mulheres de base comunitária podem gerir recursos, definir prioridades e construir soluções alinhadas às realidades dos territórios onde vivem e trabalham.

O universo das quebradeiras de coco reúne cultura, trabalho, resistência e cuidado com os babaçuais. Foto: Ingrid Barros

O reconhecimento dos saberes das quebradeiras como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro reforça essa trajetória de protagonismo construída ao longo de décadas de organização, mobilização e resistência. A conquista também evidencia a contribuição histórica das quebradeiras para a preservação dos babaçuais, para a soberania alimentar das comunidades e para a proteção da biodiversidade.

Para Maria Alaídes de Sousa, coordenadora-geral do MIQCB, essa trajetória é resultado da experiência acumulada pelas quebradeiras de coco ao longo de décadas de organização e resistência.

“O Fundo Babaçu é uma prova de que as mulheres quebradeiras de coco não são apenas guardiãs dos babaçuais. Somos também gestoras, articuladoras e formuladoras de soluções para os desafios enfrentados pelas nossas comunidades. O que sustenta esse Fundo não é apenas o recurso financeiro, mas o conhecimento que acumulamos sobre nossos territórios, sobre a floresta, sobre a produção e sobre as formas coletivas de organização. Quando nossos parceiros apoiam o Fundo Babaçu, estão reconhecendo a força desse saber construído pelas mulheres e a capacidade que temos de transformar recursos em direitos, autonomia e proteção dos babaçuais.”

Ao longo dessa caminhada, o Fundo Babaçu contou com o apoio de parceiros estratégicos como Fundo Amazônia, Fundação Ford, Tenure Facility e Co-Impact. Essas parcerias contribuíram para ampliar o alcance das iniciativas apoiadas e consolidar uma experiência reconhecida por fortalecer mulheres, juventudes e comunidades tradicionais, ao mesmo tempo em que promove a proteção da sociobiodiversidade e dos territórios dos babaçuais.

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