6/04/2026 5:24 pm

Quebradeiras de Coco Babaçu fortalecem a defesa dos territórios em curso que reúne mulheres de quatro estados

Segundo módulo reúne 58 integrantes e consolida formação em governança, direitos e proteção dos babaçuais

Fotos por Amanda Xavier

Entre os dias 17 e 20 de março, o município de Araguatins (TO) sediou o II Módulo do Curso de Formação em Governança e Direitos Territoriais, promovido pelo Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB). Ao todo, 58 integrantes dos estados do Maranhão (MA), Piauí (PI), Tocantins (TO) e Pará (PA) participaram da formação, voltada ao fortalecimento da organização coletiva e da defesa dos territórios tradicionais.

O curso integra o Projeto Baqueli e conta com o apoio da Tenure Facility. A iniciativa faz parte de um processo formativo contínuo direcionado às mulheres extrativistas que vivem dos babaçuais. Mais do que um espaço de aprendizado, a formação se consolida como estratégia de fortalecimento diante dos desafios enfrentados nos territórios, como conflitos fundiários, avanço do agronegócio e restrições de acesso às áreas de coleta.

Neste segundo módulo, foram aprofundados temas como governança comunitária, direitos territoriais, legislação ambiental e organização política. A proposta articula conhecimento técnico com saberes tradicionais, partindo da realidade vivida pelas próprias quebradeiras.

As atividades incluíram rodas de conversa, estudos coletivos e dinâmicas práticas, como exercícios de cartografia social. A partir dessas ferramentas, as participantes mapearam seus territórios, identificando potencialidades e ameaças, o que contribui diretamente para o fortalecimento de estratégias locais de defesa.

A coordenadora de base do MIQCB no regional Piauí, Maria de Jesus, conhecida como Janete, destaca a importância desse processo ao longo do tempo: “Tem sido um espaço de crescimento contínuo. É de grande importância para nós, porque estamos desenvolvendo um estudo fundamental para garantir a preservação e a sustentabilidade dos nossos territórios”, afirma.

Ela também ressalta a importância de incorporar novos conhecimentos ao trabalho nas comunidades: “A gente realizou atividades, buscou outras referências e passou por uma formação em cartografia social para aplicar nos territórios. A partir disso, levamos esse conhecimento para as comunidades, identificando tanto as potencialidades quanto às ameaças presentes.”

Troca entre territórios fortalece o movimento

O segundo módulo também marcou um momento de aprofundamento e articulação entre os diferentes estados. A troca de experiências permite que as participantes reconheçam desafios comuns e fortaleçam respostas coletivas.

Para Silvana Paixão, coordenadora de base do MIQCB no regional Tocantins, sediar o encontro foi uma experiência significativa: “Foi muito gratificante receber os outros estados do nosso movimento. Nos reunimos para falar dos nossos territórios, do fortalecimento das quebradeiras e de tudo que cada uma vem construindo em suas comunidades.”

A organização do encontro exigiu mobilização e trabalho coletivo: “Foi um processo que gerou preocupação, aquele receio de algo não sair como o planejado. Mas também confiamos na força do trabalho coletivo e na dedicação de cada uma para que tudo desse certo”, relata.

Ao final, a avaliação é positiva: “Pela minha observação, deu certo. Foi uma experiência muito positiva e acredito que ninguém saiu insatisfeito.”

Conhecimento como estratégia de defesa

O curso parte do entendimento de que o acesso à formação é essencial para a defesa dos territórios tradicionais. Ao abordar temas como legislação, políticas públicas e organização comunitária, amplia a capacidade das quebradeiras de atuar em processos de decisão e na reivindicação de direitos.

Nesse contexto, o campo jurídico também integra a formação como ferramenta estratégica. A atuação da equipe jurídica do MIQCB contribui para que as participantes compreendam e utilizem instrumentos legais na proteção de seus territórios.

A advogada Renata Reis, da coordenação jurídica do movimento e responsável pelas ações do projeto, destaca:

“As quebradeiras de coco são produtoras de práticas e conhecimentos jurídicos que vêm sendo, pouco a pouco, integrados ao conjunto de normas que orientam o Estado e a sociedade brasileira no reconhecimento e na garantia dos modos de vida dessas mulheres. Um exemplo emblemático são as leis do babaçu livre, que dialogam com políticas ambientais, fundiárias, agrárias, para mulheres e apontam para uma política nacional de proteção dos territórios tradicionais. O curso de formação é um instrumento de registro e partilha desse acúmulo entre gerações, além de orientar a ação política do movimento.”

O II Módulo reafirma a formação continuada como uma estratégia central do MIQCB. A expectativa é que os próximos encontros ampliem esse processo, fortalecendo a atuação das quebradeiras em seus territórios e consolidando uma rede articulada entre diferentes estados.

Mais do que uma etapa formativa, o curso se firma como um instrumento de permanência, um espaço em que o conhecimento se transforma em prática e onde a defesa do território se constrói coletivamente.

O curso contará ainda com mais dois módulos, com a formatura da turma prevista para junho de 2026.

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