Quebradeiras de Coco Babaçu fortalecem luta territorial em oficina de cartografia social na UFPI, em Teresina
Nesta segunda-feira (23), na Universidade Federal do Piauí (UFPI), em Teresina, as alunas do Curso de Formação em Governança e Direitos Territoriais das Quebradeiras de Coco Babaçu participaram de uma oficina prática sobre cartografia social, aprofundando o debate sobre território, identidade e direitos. A atividade integra o processo formativo promovido pelo Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB) e reforça a construção coletiva de instrumentos políticos para a defesa dos territórios tradicionais.
A oficina foi conduzida pelas professoras Elida Cardoso do Instituto Federal do Piauí e Carmem Silva, do Departamento de Cartografia Social da UFPI, além da professora convidada Adriana Miranda, do Departamento de Biologia, que dialogaram com as estudantes sobre o mapa como instrumento político, pedagógico e de afirmação das comunidades tradicionais.
Cartografia social: mapa como instrumento político de resistência
Durante a atividade, as educadoras provocaram uma reflexão crítica sobre o papel histórico da cartografia na definição de fronteiras, propriedades e políticas públicas, muitas vezes desconsiderando a presença e os direitos das comunidades tradicionais.
A professora Elida Cardoso destacou:
“O mapa não é neutro. Ele pode invisibilizar, mas também pode fortalecer identidades e tornar visíveis os direitos das comunidades.”
Já a professora Carmem Silva reforçou o caráter emancipatório da metodologia:
“É a comunidade que define o que é território, o que aparece no mapa e quais são as legendas”, subvertendo a lógica oficial da produção cartográfica tradicional.
Ao construir seus próprios mapas, as quebradeiras reafirmam que território não é apenas espaço físico, mas lugar de vida, cultura, trabalho, ancestralidade e pertencimento.
Formação política e autonomia territorial
O Curso de Formação em Governança e Direitos Territoriais integra a estratégia do MIQCB de fortalecer a organização política das mulheres quebradeiras de coco babaçu nos estados do Maranhão, Piauí, Pará e Tocantins. A formação articula conhecimento teórico, saberes tradicionais e instrumentos jurídicos e políticos fundamentais para a defesa dos territórios.
Para a coordenadora executiva do MIQCB regional Piauí, Marinalda Rodrigues, a iniciativa tem caráter estratégico para a luta coletiva:
“Quando a gente aprende a ler e a construir nossos próprios mapas, a gente fortalece nossa autonomia e reafirma nosso direito ao território.”
A cartografia social, nesse contexto, torna-se ferramenta de incidência política em pautas centrais do Movimento, como a Lei Babaçu Livre, a regularização fundiária dos territórios tradicionais, o financiamento direto às organizações de mulheres extrativistas e a ampliação da participação política das mulheres nos espaços de decisão.
Defesa dos territórios e da sociobiodiversidade
A oficina reafirma que produzir conhecimento a partir da própria vivência é também um ato político de resistência e organização. Ao mapear seus territórios, as quebradeiras evidenciam áreas de coleta, caminhos tradicionais, nascentes, roçados e espaços de uso comum, fortalecendo a defesa da sociobiodiversidade do babaçu frente às ameaças de desmatamento, grilagem e cercamento.
Para o MIQCB, a luta pelo território está diretamente vinculada à agenda climática global. A preservação dos babaçuais e dos modos de vida tradicionais contribui para a manutenção dos ecossistemas, da segurança alimentar e da justiça socioambiental.
Ao fortalecer o protagonismo das mulheres quebradeiras de coco babaçu na produção de conhecimento e na incidência política, o Movimento reafirma seu compromisso com a justiça climática e com a defesa dos territórios tradicionais.
Porque, para as quebradeiras, território é vida, organização e futuro.
MIQCB
MOVIMENTO INTERESTADUAL DAS QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU