23/02/2026 7:32 pm

Quebradeiras de Coco Babaçu fortalecem luta territorial em oficina de cartografia social na UFPI, em Teresina

Nesta segunda-feira (23), na Universidade Federal do Piauí (UFPI), em Teresina, as alunas do Curso de Formação em Governança e Direitos Territoriais das Quebradeiras de Coco Babaçu participaram de uma oficina prática sobre cartografia social, aprofundando o debate sobre território, identidade e direitos. A atividade integra o processo formativo promovido pelo Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB) e reforça a construção coletiva de instrumentos políticos para a defesa dos territórios tradicionais.

A oficina foi conduzida pelas professoras Elida Cardoso do Instituto Federal do Piauí e Carmem Silva, do Departamento de Cartografia Social da UFPI, além da professora convidada Adriana Miranda, do Departamento de Biologia, que dialogaram com as estudantes sobre o mapa como instrumento político, pedagógico e de afirmação das comunidades tradicionais.

Cartografia social: mapa como instrumento político de resistência

Durante a atividade, as educadoras provocaram uma reflexão crítica sobre o papel histórico da cartografia na definição de fronteiras, propriedades e políticas públicas, muitas vezes desconsiderando a presença e os direitos das comunidades tradicionais.

A professora Elida Cardoso destacou:

“O mapa não é neutro. Ele pode invisibilizar, mas também pode fortalecer identidades e tornar visíveis os direitos das comunidades.”

Já a professora Carmem Silva reforçou o caráter emancipatório da metodologia:

“É a comunidade que define o que é território, o que aparece no mapa e quais são as legendas”, subvertendo a lógica oficial da produção cartográfica tradicional.

Ao construir seus próprios mapas, as quebradeiras reafirmam que território não é apenas espaço físico, mas lugar de vida, cultura, trabalho, ancestralidade e pertencimento.

Formação política e autonomia territorial

O Curso de Formação em Governança e Direitos Territoriais integra a estratégia do MIQCB de fortalecer a organização política das mulheres quebradeiras de coco babaçu nos estados do Maranhão, Piauí, Pará e Tocantins. A formação articula conhecimento teórico, saberes tradicionais e instrumentos jurídicos e políticos fundamentais para a defesa dos territórios.

Para a coordenadora executiva do MIQCB regional Piauí, Marinalda Rodrigues, a iniciativa tem caráter estratégico para a luta coletiva:

“Quando a gente aprende a ler e a construir nossos próprios mapas, a gente fortalece nossa autonomia e reafirma nosso direito ao território.”

A cartografia social, nesse contexto, torna-se ferramenta de incidência política em pautas centrais do Movimento, como a Lei Babaçu Livre, a regularização fundiária dos territórios tradicionais, o financiamento direto às organizações de mulheres extrativistas e a ampliação da participação política das mulheres nos espaços de decisão.

Defesa dos territórios e da sociobiodiversidade

A oficina reafirma que produzir conhecimento a partir da própria vivência é também um ato político de resistência e organização. Ao mapear seus territórios, as quebradeiras evidenciam áreas de coleta, caminhos tradicionais, nascentes, roçados e espaços de uso comum, fortalecendo a defesa da sociobiodiversidade do babaçu frente às ameaças de desmatamento, grilagem e cercamento.

Para o MIQCB, a luta pelo território está diretamente vinculada à agenda climática global. A preservação dos babaçuais e dos modos de vida tradicionais contribui para a manutenção dos ecossistemas, da segurança alimentar e da justiça socioambiental.

Ao fortalecer o protagonismo das mulheres quebradeiras de coco babaçu na produção de conhecimento e na incidência política, o Movimento reafirma seu compromisso com a justiça climática e com a defesa dos territórios tradicionais.

Porque, para as quebradeiras, território é vida, organização e futuro.

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